A devoção a Nossa Senhora Aparecida, que se manifesta em romarias e na fé popular, tornou-se centro de um debate político-religioso. Originada da descoberta de uma imagem no Rio Paraíba do Sul em 1717 por três pescadores, a devoção cresceu entre os mais humildes. A canção 'Romaria', imortalizada por Elis Regina, reflete a simplicidade e a profundidade dessa fé. No entanto, em um contexto atual, essa fé popular tem sido alvo de ataques e apropriação por parte de setores políticos e religiosos.
Em período pré-eleitoral, manifestações de figuras públicas reacenderam a discussão sobre a teologia do domínio. Em 2001, um bispo, que mais de duas décadas depois batizaria um candidato da extrema-direita, publicou um livro que propunha a ilegalidade do feriado de 12 de outubro e o 'destronamento' da padroeira. Mais recentemente, em agosto e setembro de 2026, um candidato prometeu que o Brasil 'pertence a Jesus Cristo', e um aliado afirmou que o país 'não pertence a essa senhora', referindo-se a Nossa Senhora Aparecida. Essas declarações geraram indignação imediata entre católicos, padres e bispos, com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sendo acusada de patrocinar mentiras, o que foi rebatido pelos líderes religiosos.
Teologia do Domínio e Fundamentalismo
A cúpula da Igreja Católica já vinha analisando desde 2019 o que chamou de teologia do domínio, que se manifesta em ataques a símbolos religiosos e espaços de culto, como imagens despedaçadas e terreiros incendiados. Essa teologia, que busca a conquista de esferas sociais e políticas por cristãos, foi comparada à teocracia iraniana em um documento levado à CNBB em 2022 e associada ao avanço da extrema-direita. O fundamentalismo religioso, alimentado pelo medo e pela busca por ordem e pureza, encontra terreno fértil em narrativas que criam inimigos e prometem segurança.
O conceito de fundamentalismo surgiu nos Estados Unidos entre 1910 e 1915, como uma reação às mudanças sociais e científicas da época. Segundo Karen Armstrong, fundamentalismos cristãos, judaicos e islâmicos compartilham a sensação de cerco pela modernidade, o que leva a uma postura de contra-ataque. A história mostra que a união entre cruz e espada, como no Brasil colonial com a catequização forçada, pode levar à perseguição e à negação da pluralidade religiosa, como o sincretismo afro-brasileiro, que associa orixás a santos católicos.
Laicidade e Intolerância Religiosa
A Constituição de 1824 estabeleceu o catolicismo como religião oficial do Império, e somente em 1890 o Estado brasileiro se separou da Igreja. A laicidade, alcançada após séculos de luta, é um pilar da democracia. Quando a fé e o poder se confundem, surgem hostilidades, como o 'narcisismo das pequenas diferenças' apontado por Freud. O diálogo inter-religioso é a 'vacina' contra essa 'febre' hegemônica, e a promessa de governar por decretos religiosos ataca essa proteção coletiva.
A história recente do Brasil já presenciou atos de intolerância, como a destruição da imagem de Nossa Senhora Aparecida em 1978 e o chute de uma réplica da imagem por um bispo em 1995. No entanto, os maiores danos recaem sobre as pessoas, como a morte de Mãe Gilda em 2000 após a depredação de seu terreiro, data que se tornou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A apropriação da fé pela política, transformando-a em instrumento eleitoral, corrompe sua essência espiritual e mina a autoridade dos líderes religiosos. A religião, ao ser sequestrada pela política partidária, perde sua voz profética e sua capacidade de promover o amor ao próximo de forma genuína.






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