Um levantamento documental revelou a persistência de ataques contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e seus integrantes. Desde 2018, foram registrados casos de acusações de alinhamento político, tentativas de deslegitimar a fé, campanhas de boicote e atos de intimidação contra bispos. O relatório, intitulado “Ataques à CNBB e aos seus bispos — recorrência, intimidação e disputa política”, compila informações de oito anos, incluindo registros institucionais, reportagens e publicações em redes sociais até 27 de setembro de 2026.

Os ataques seguem um padrão, com a CNBB frequentemente sendo associada ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao comunismo. Também são levantadas dúvidas sobre a destinação de fundos de campanhas religiosas e acusações de heresia ou desvio doutrinário. Há ainda tentativas de enfraquecer iniciativas como a Campanha da Fraternidade. Casos mais graves incluem ameaças, intimidações durante celebrações religiosas e até um episódio de monitoramento de bispos, detalhado em uma investigação da Polícia Federal.

Incidente com Flávio Bolsonaro e Repercussão

Um dos fatos mais recentes abordados no relatório ocorreu em 27 de setembro de 2026. Durante uma carreata em Goiânia, Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, afirmou que indivíduos ligados à CNBB teriam contribuído para a disseminação de uma notícia falsa sobre sua intenção de retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Segundo ele, o PT teria conseguido isso “com a ajuda de gente de dentro da CNBB”. A entidade, por sua vez, divulgou uma nota negando qualquer envolvimento na produção ou divulgação de informações falsas e rejeitou vínculos com estruturas político-partidárias.

A declaração de Flávio Bolsonaro gerou grande repercussão nas redes sociais naquela mesma noite. A publicação da entrevista pelo Metrópoles rapidamente levou a diversas manifestações que associavam a CNBB ao PT, ao comunismo e à Teologia da Libertação. Perfis como “Bolsonaristasnews” e o Centro Dom Bosco republicaram o vídeo, interpretando as ações da CNBB como simpáticas à extrema esquerda e indicando uma suposta “infiltração revolucionária” na Igreja.

Histórico de Ataques desde 2018

O levantamento aponta que o histórico de ataques remonta a 2018, quando a Campanha da Fraternidade começou a ser alvo de acusações sobre o uso de seus recursos. Naquele ano, Jair Bolsonaro utilizou a expressão “parte podre” para se referir a membros da Igreja e da CNBB. Em 2019, Eduardo Bolsonaro afirmou que a esquerda teria se infiltrado na Igreja Católica por meio da CNBB, e o então presidente da conferência, dom Walmor Oliveira de Azevedo, passou a ser alvo de críticas nas redes sociais.

Um dos episódios mais sérios ocorreu em 2020, quando uma investigação da Polícia Federal descreveu um levantamento envolvendo 152 bispos que haviam assinado uma carta crítica ao governo de Jair Bolsonaro. Este relatório policial, conforme o documento, mencionaria a atuação de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Em 2021, campanhas de boicote financeiro foram organizadas contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica, com o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO) divulgando conteúdo crítico e promovendo um abaixo-assinado.

Em novembro de 2022, o então bispo auxiliar de Belo Horizonte, dom Vicente Ferreira, foi vítima de intimidação durante uma celebração de crisma, com relatos de ameaças de morte e a presença de uma pessoa armada. No mesmo ano, dom Odilo Scherer foi associado ao PT após ser fotografado com uma camisa vermelha. Em 2024, um relatório do Observatório da Comunicação Religiosa (OCR) interpretou os ataques à Campanha da Fraternidade como uma “estratégia articulada de ataques à Igreja”.