Investimentos de pelo menos R$ 14,3 bilhões em ações judiciais do setor sucroalcooleiro ficaram no centro da rede de influência atribuída ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, junto a integrantes de tribunais superiores. O caso foi detalhado em reportagem publicada nesta terça-feira.

O valor se refere a 16 processos nos quais o banco comprou direitos creditórios de usinas de açúcar e álcool. Esses ativos, conhecidos no mercado como pré-precatórios, dizem respeito a indenizações cobradas da União por conta da política de fixação de preços adotada pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool nas décadas de 1980 e 1990.

Operações e fiscalização

As informações constam em relatório do escritório Galdino Advogados, elaborado em 2024 e entregue ao Banco Central para subsidiar a fiscalização sobre o Master. A compra desses direitos buscava lucro elevado caso teses favoráveis às usinas fossem aceitas pelo STJ e pelo STF, convertendo as disputas em precatórios definitivos.

Segundo a apuração, os papéis eram adquiridos com forte desconto, em torno de 20% do valor estimado da causa, enquanto a União assumiria o pagamento integral no fim. A AGU calcula que existam cerca de 178 processos sobre a intervenção estatal no setor de cana-de-açúcar.

Dados do Conselho da Justiça Federal apontam que os títulos já expedidos nessa área somam R$ 47,8 bilhões. Na LDO de 2025, o impacto fiscal potencial das ações chegou a R$ 79,6 bilhões.

Relações com o Judiciário

As investigações também identificaram mensagens no celular de Vorcaro que mostram contatos com magistrados e parentes de membros do Judiciário. Em um dos diálogos, com o diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, é tratado o pagamento mensal de R$ 500 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do STF Kassio Nunes Marques.

O ministro afirmou em nota que nunca votou a favor de Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. Disse ainda que não autorizou ninguém a falar em seu nome e classificou como irresponsáveis as tentativas de relacionar sua atuação aos serviços prestados pelo filho ou por terceiros.

O Banco Master também manteve um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Já no STJ, mensagens apontam conversas entre Vorcaro e o ministro Benedito Gonçalves, que disse estar sempre à disposição do ex-banqueiro.

Além do peso judicial, o parecer contratado ao Galdino Advogados foi usado em meio a questionamentos do Banco Central sobre inconsistências no balanço do Master. A análise avaliou chances de êxito e prazos de recebimento dos ativos, sem verificar se os valores registrados em contabilidade eram adequados.

Segundo a fiscalização, Vorcaro também usou esses títulos para tentar conter a crise do banco. Entre outubro e novembro de 2025, o Master vendeu R$ 2,9 bilhões em direitos creditórios para entidades ligadas ao próprio ecossistema, como fundos de investimento controlados e a empresa de pagamentos EntrePay.

Em uma das operações, um ativo ligado à usina São João B. Lyzandro foi transferido ao fundo GSR por R$ 962 milhões e, menos de 24 horas depois, passou ao fundo Krispy com nova avaliação de R$ 1,1 bilhão. O avanço das apurações indicou ainda que o total de precatórios e pré-precatórios vinculados ao Master chegava a R$ 21 bilhões, acima dos R$ 8 bilhões informados na contabilidade oficial.