A reta final da eleição presidencial é marcada pelo impacto de denúncias que ligam o senador Flávio Bolsonaro ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a grupos milicianos no Rio de Janeiro. Essa situação, avalia o cientista político Josué Medeiros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), pode dificultar o avanço do parlamentar e favorecer a candidatura do presidente Lula. A análise foi apresentada em um artigo publicado na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, a sete dias do pleito, que se mostra altamente competitivo e com cenários de empate técnico no segundo turno, conforme indicam pesquisas recentes.

Cenário decisivo e teto eleitoral

Medeiros destaca que o Brasil se aproxima de um momento crucial, onde a escolha definirá entre a continuidade de um projeto democrático e social ou a imersão na extrema-direita. Caso o candidato da oposição vença, o especialista alerta para a possibilidade de Flávio Bolsonaro ter maioria no Congresso Nacional e poder indicar quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que, segundo ele, eliminaria freios institucionais e permitiria a implementação de um projeto bolsonarista. O cientista político também aponta riscos como um alinhamento com o governo de Donald Trump, a intensificação da militarização e a entrega de riquezas nacionais, ameaçando direitos sociais, instituições, biomas e a soberania do país.

As análises do OPEL, desde 2022, indicam a consolidação da polarização entre Lula e Bolsonaro, com a ausência de uma terceira via competitiva, levando o eleitorado a antecipar sua decisão para o segundo turno. Embora o crescimento de Flávio Bolsonaro fosse esperado, ele encontra um teto eleitoral próximo aos 42% dos votos válidos obtidos por seu pai em 2022, devido a altos índices de rejeição. Uma pesquisa do OPEL, realizada com 80 grupos focais em 13 capitais, entre abril e junho de 2026, identificou um "sentimento antissistema difuso", uma insatisfação generalizada com a classe política, que abrange grande parte da população devido a problemas cotidianos como mobilidade, eventos climáticos, segurança e economia. Diferente do antissistema bolsonarista, este sentimento geral dificulta a conversão dos resultados da gestão Lula em maior popularidade.

Resiliência de Lula e pautas estratégicas

Apesar das flutuações da campanha e da percepção de crescimento de Flávio Bolsonaro, Lula demonstrou resiliência eleitoral, mantendo a liderança e um patamar próximo de 40% dos votos válidos. A sustentação de sua candidatura baseia-se em seu carisma, na memória de mandatos anteriores e nos efeitos das políticas atuais. Medeiros ressalta que, ao contrário do que se pensa, as políticas recentes de Lula, como o Pé-de-Meia e o Desenrola, são valorizadas pela população, assim como sua postura firme diante de ações como a taxação de tarifas imposta por Donald Trump.

Para superar o sentimento antissistema difuso e favorecer Lula na última semana de campanha, o coordenador do OPEL elenca três pautas cruciais: as denúncias sobre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, envolvendo financiamento para um filme, que teriam impactado negativamente a imagem do senador nos grupos focais, somando-se à rejeição por suas ligações com milícias e posições sobre vacinas e meio ambiente; a proposta de fim da escala 6x1 sem redução salarial, que obteve amplo apoio e impulsionou a agenda de Lula; e o combate às apostas eletrônicas (bets), cuja rejeição majoritária devido a problemas sociais e familiares gerados pelo vício indica que uma Medida Provisória sobre o tema teria forte apelo eleitoral.

A mobilização na última semana foca em eleitorados decisivos. O crescimento entre mulheres, por exemplo, coincide com a pauta de combate às bets e o desgaste de Flávio Bolsonaro. Periferias urbanas e favelas, afetadas pelo sentimento antissistema difuso e por problemas como transporte, clima e violência, são prioridade. A disputa pelos indecisos, que representam de 5% a 10% do total e tendem a votar pelo "menos pior", exigirá a centralidade de temas como o risco de expansão das milícias, as investigações do STF sobre o Banco Master, a defesa da soberania nacional, o negacionismo vacinal e a destruição ambiental na Amazônia durante a gestão anterior.