Durante seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 22 de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou a expressão “Ao vencedor pertencem os despojos”. A frase foi dita logo após a fala do Presidente Lula e causou repercussão, sendo interpretada como um reflexo de uma mentalidade que associa a força à aquisição de bens e recursos.

A menção ocorreu no contexto em que Trump abordava a atuação militar dos EUA na Venezuela, a possível captura de Nicolás Maduro e os interesses econômicos relacionados ao petróleo venezuelano. O então presidente reiterou a disposição americana de usar seu poderio militar para proteger o que considera interesses vitais no hemisfério. A frase, que não foi considerada um mero detalhe retórico, evoca uma era antiga onde a vitória em conflitos resultava na pilhagem de cidades e na subjugação dos derrotados, uma prática comum em impérios passados e conquistas coloniais.

Repercussões e o contexto da ONU

A ideia de que a força gera direito é uma concepção que o mundo moderno, após as duas Guerras Mundiais, buscou superar com a criação de instituições como a própria ONU em 1945. O objetivo era estabelecer uma ordem global onde a força não fosse automaticamente equivalente ao direito. A fala de Trump, nesse cenário, foi vista por muitos como um afrontamento ao espírito fundador da organização e um retrocesso nas relações internacionais.

A escolha da palavra “despojos” é particularmente incômoda, pois Trump não se referia a troféus simbólicos, mas sim a recursos naturais, especificamente o petróleo da Venezuela, que possui uma das maiores reservas do mundo. Essa associação entre vitória militar e o acesso aos recursos do vencido confere à declaração um significado que transcende a retórica, expondo uma lógica de poder que a diplomacia usualmente tenta mitigar. O ato de proferir tal frase no palco das Nações Unidas, onde são defendidos a soberania, o direito internacional e a solução pacífica de conflitos, simboliza uma crise do multilateralismo e um choque entre a tentativa de reconstruir regras comuns e a afirmação crua da força.

Um retorno à pré-história do direito?

A concepção de Trump, onde “o mundo é dos vencedores”, sugere uma visão hierárquica e transacional das relações internacionais, questionando se as ações são legítimas ou apenas eficazes. Se essa lógica for amplamente aceita, qualquer potência com força suficiente poderia justificar a apropriação de recursos, levando a uma ordem internacional hobbesiana, onde a busca por poder e a capacidade de intimidar se tornam os pilares da diplomacia. O perigo reside na deslegitimação do direito pela força, onde a vitória em conflito automaticamente anularia os direitos do vencido, um cenário que a história do colonialismo já demonstrou ser insustentável. A questão fundamental é se a comunidade internacional deseja um futuro regido por regras ou pela lei do mais forte.