Ana Estela Haddad afirmou que não se deve tratar o eleitorado evangélico como um bloco político único, evidenciando a existência de grupos dentro das igrejas que apoiam candidaturas do campo progressista e defendem a democracia. Durante entrevista ao Boa Noite 247, ela relatou um encontro com membros da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e questionou a associação automática entre a população evangélica e a direita. “Os evangélicos, muitos estão com a gente”, disse Ana Estela. Segundo ela, a reunião permitiu discutir a diversidade existente nas denominações e a disputa pela representação política desse segmento religioso.

Diversidade e Apropriação Política

O encontro mencionado por Ana Estela ocorreu em um sábado, quando Fernando Haddad, então candidato do PT ao governo de São Paulo, se reuniu com representantes de denominações como batistas, metodistas e presbiterianos. Organizada pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, a agenda contou com cerca de 25 participantes. Na ocasião, Haddad assinou uma carta de compromissos com 11 pontos, incluindo a defesa do Estado Democrático de Direito, da liberdade religiosa, da laicidade do Estado, o combate à intolerância religiosa e às desigualdades. O documento também prevê que campanhas eleitorais não sejam realizadas em templos ou celebrações religiosas.

Ana Estela argumentou que a atuação de grupos como a Frente Evangélicos pelo Estado de Direito revela uma realidade que muitas vezes é ignorada quando o eleitorado evangélico é apresentado apenas por suas lideranças mais identificadas com a direita. Para ela, há uma disputa política e religiosa dentro desse universo. “Houve uma apropriação indébita do termo e da religião para finalidades políticas”, declarou.

Ela avalia que certas posições, apresentadas como representação do conjunto dos evangélicos, não correspondem à diversidade entre fiéis, pastores, igrejas e movimentos cristãos. Essa visão é corroborada pela composição da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, criada em 2016 com integrantes de diferentes igrejas e posições partidárias, que atua em temas como democracia, direitos humanos, liberdade religiosa e políticas sociais.

Cenário Eleitoral e Diálogo

Essa diversidade coexiste, contudo, com desafios eleitorais. Uma pesquisa Datafolha citada pelo UOL indicou Tarcísio de Freitas com 59% das intenções de voto entre evangélicos paulistas, contra 20% de Haddad. Esse dado sugere que a presença de movimentos evangélicos progressistas não se traduz em apoio majoritário do segmento à candidatura petista. Ana Estela busca questionar essa generalização, afirmando que “os evangélicos estão do nosso lado” em referência a grupos e fiéis evangélicos alinhados ao campo político que apoiava Haddad e Lula, e não ao conjunto do eleitorado religioso paulista.

A mobilização não se limita à eleição estadual. Nacionalmente, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito manifestou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula também se reuniu recentemente com membros do movimento e líderes religiosos, onde foi defendida a pluralidade política nas igrejas. Para Ana Estela, essa pluralidade deve ser levada ao debate público. Ela expressou “apreço muito grande pelos evangélicos” e criticou o uso da religião para fins eleitorais, destacando materiais da Frente que conectam princípios cristãos a temas sociais, como a saúde, e relacionam os evangélicos ao Evangelho. A relação entre religião e política é vista como parte da disputa pelo eleitorado, sendo o reconhecimento da divisão interna essencial para o diálogo com esse segmento diversificado. “A gente tem muitos e muitos evangélicos que estão no nosso campo, que lutam pela democracia”, reiterou.