Na Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu diretamente o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que havia declarado que Washington poderia usar sua força militar para garantir interesses no Hemisfério Ocidental. Lula respondeu com a frase: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, e completou afirmando que as riquezas naturais brasileiras “não são despojos” e que a democracia do país não se curva a pressões externas. O confronto ocorreu a poucos dias da eleição presidencial, marcada para 4 de outubro.
No mesmo plenário, Trump defendeu a política externa dos EUA, incluindo a intervenção na Venezuela, que ele admitiu ter como objetivo o controle do petróleo, e citou a máxima “ao vencedor, os espólios”. Essa declaração foi interpretada como uma ameaça explícita à soberania de países latino-americanos, especialmente diante da intenção de Washington de conter a China e transformar recursos estratégicos da região em ativos americanos.
Risco de ingerência
O governo brasileiro e setores progressistas veem como real o risco de ingerência externa no processo eleitoral. Informações atribuídas à Agência Brasileira de Inteligência e denúncias encaminhadas à ONU indicam movimentos para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, apontado como aliado de Trump e Rubio. Lula, em seu discurso, alertou que “os inimigos da democracia atuam de dentro e de fora”, sem citar nomes, mas com claro direcionamento.
Flávio Bolsonaro, em reunião da CPAC em Washington, apresentou os minerais críticos e terras raras do Brasil como instrumentos para reduzir a dependência americana da China, enfatizando a superioridade tecnológica e militar dos EUA. Lula, por sua vez, afirmou que o Brasil aceita parcerias, mas “não abriremos mão de agregar valor em território nacional”.
A posição da China
O presidente chinês Xi Jinping já havia sinalizado uma posição contrária à visão de Trump, ao receber em Pequim o presidente equatoriano Daniel Noboa, aliado dos EUA, e afirmar que os países latino-americanos têm o direito de escolher seus parceiros “sem interferência externa”. A China mantém um discurso de não exclusividade e já negocia com governos alinhados a Washington, mas sua reação a uma vitória de Flávio Bolsonaro dependerá das medidas do novo governo.
Se Flávio vencer, a China tende a manter uma relação pragmática, mas poderá responder a ações que excluam empresas chinesas ou enfraqueçam os Brics. Uma crise comercial afetaria diretamente o agronegócio, que é uma base de apoio do bolsonarismo. Já se Lula for reeleito, o governo brasileiro, diplomatas e organizações trabalham para assegurar rápido reconhecimento internacional do resultado, para evitar um vazio diplomático diante de possível contestação de Trump.
O embate na ONU reflete a polarização da disputa eleitoral brasileira, que decidirá não apenas o próximo presidente, mas a orientação do país em relação à autonomia e à soberania sobre seus recursos.






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