247 – Uma empresa estadunidense que presta serviços de idiomas a órgãos militares e de inteligência dos Estados Unidos abriu uma vaga para professor de português brasileiro destinado a um treinamento especializado programado para outubro e novembro de 2026, período que coincide com a reta final das eleições no Brasil.

Segundo a coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo, a Ascensus Global procura um profissional com português nativo, domínio do inglês e experiência no ensino do idioma a militares ou funcionários governamentais. O anúncio da empresa confirma que o programa terá três semanas de duração, com uma semana de atividades virtuais e outras duas presenciais em Montgomery, no Alabama.

Vaga prevê treinamento de três semanas

A contratação se diferencia de outras oportunidades divulgadas pela empresa. Segundo a Folha, a Ascensus Global também publicou vagas neste mês para professores de espanhol, árabe, mandarim e português europeu, mas essas posições não estabelecem um período específico para o treinamento.

A vaga destinada ao português brasileiro também é, entre as citadas pela reportagem, a única que faz referência direta ao ensino de integrantes das Forças Armadas estadunidenses.

A descrição pública da oportunidade informa que o instrutor participará de um “programa de treinamento especializado”. O profissional deverá ter experiência anterior no ensino de português para militares e/ou funcionários governamentais e conhecimento de interpretação entre português e inglês.

Entre as responsabilidades previstas estão a preparação de materiais didáticos de acordo com os objetivos do programa, a incorporação de atividades de interpretação ao treinamento, a realização de aulas em português e a participação em avaliações dos alunos. Também estão previstos exercícios presenciais de simulação.

A Ascensus Global se apresenta como uma empresa de propriedade de veteranos com deficiência relacionada ao serviço militar e afirma atender mais de 40 órgãos militares e de inteligência dos Estados Unidos, além de milhares de organizações governamentais civis, comerciais e sem fins lucrativos.

Programa será realizado em Montgomery

O calendário estabelecido para a vaga chama atenção por coincidir com o período eleitoral brasileiro. O programa será realizado entre outubro e novembro, com duas das três semanas previstas para atividades presenciais em Montgomery.

A cidade do Alabama abriga instalações militares estadunidenses. A vaga, no entanto, não identifica publicamente qual órgão ou unidade receberá o treinamento nem apresenta relação entre o programa linguístico e o processo eleitoral brasileiro.

Abin monitora risco de influência externa

A contratação ocorre em um momento no qual autoridades brasileiras acompanham possíveis ameaças externas ao processo eleitoral de 2026.

Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre ameaças às eleições elevou a possibilidade de influência e interferência externa dos Estados Unidos a um “nível de criticidade”.

O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça.

O relatório aponta uma tendência de escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil e avalia que o governo do presidente Donald Trump tem entre suas prioridades estratégicas reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina.

Trump amplia discurso contra cartéis nas Américas

O episódio também ocorre em meio à ampliação da política do governo Trump contra cartéis e organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas no continente americano.

Em março, Trump assinou uma proclamação determinando uma atuação coordenada contra cartéis e outras organizações classificadas pelo governo norte-americano como terroristas no Hemisfério Ocidental. O documento prevê, entre outras medidas, que os Estados Unidos treinem e mobilizem forças militares de países parceiros.

A estratégia estadunidense para 2026 também prevê o emprego de instrumentos militares, de inteligência, financeiros e policiais contra organizações criminosas transnacionais. Documentos oficiais da Casa Branca colocam o combate aos cartéis entre as prioridades de segurança dos Estados Unidos para o continente.

Nesta terça-feira (22), durante a 81ª Assembleia Geral da ONU, Trump voltou a adotar um discurso de emprego da força contra organizações criminosas nas Américas, classificou positivamente a ação estadunidense na Venezuela e comparou cartéis de drogas ao Estado Islâmico.

Dias antes, a Casa Branca havia divulgado uma determinação presidencial que identifica 23 países como grandes produtores de drogas ilícitas ou territórios relevantes para o trânsito dessas substâncias. O governo Trump voltou a defender que esses países intensifiquem o combate ao narcotráfico e ao que Washington denomina “narcoterrorismo”.