Uma análise da pesquisadora Shambhavi Anand, do centro de pensamento indiano Vivekananda International Foundation (VIF), afirma que a corrida global por minerais críticos abre chance histórica para a África deixar de ser apenas exportadora de matérias-primas e avançar rumo à industrialização. O estudo, divulgado recentemente, ressalta que a demanda por cobalto, cobre, lítio e terras raras, usados em tecnologias de energia limpa e inteligência artificial, coloca o continente em posição estratégica.
Segundo a especialista, a África concentra mais de um quarto das reservas mundiais de minerais críticos, além de 60% dos depósitos globais de metais do grupo da platina, tântalo, cobalto e cromo. Esse potencial, no entanto, historicamente é explorado com pouco processamento local, enquanto etapas de maior valor, como refino e fabricação de componentes, ocorrem em outros países.
Investimento menor na República Democrática do Congo
Anand cita o exemplo da República Democrática do Congo (RDC), maior fornecedor mundial de cobalto. Uma instalação para produzir materiais precursores de baterias exigiria cerca de US$ 39 milhões, valor aproximadamente três vezes inferior ao necessário para uma estrutura semelhante nos Estados Unidos. Além do custo menor, a produção local poderia ter benefícios ambientais.
Para que a industrialização saia do papel, a pesquisadora aponta a infraestrutura como gargalo decisivo. Estradas, ferrovias, portos e energia confiável são essenciais para viabilizar cadeias competitivas. A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) aparece como região favorável, pois combina recursos minerais com alto potencial de geração solar e hidrelétrica, o que permitiria abastecer o refino com energia renovável.
Benefícios para comunidades e cooperação com Índia
A transformação também tem dimensão social: as comunidades das áreas produtoras precisam enxergar ganhos concretos, como empregos, qualificação, proteção ambiental e transparência na distribuição das receitas. Sem isso, grandes projetos minerais podem enfrentar resistência e dificultar modelos sustentáveis.
O estudo sugere ainda uma parceria mais profunda entre Índia e África. A Índia busca minerais críticos para sua transição energética e expansão industrial, enquanto o continente africano quer ampliar capacidade de processamento. O BRICS poderia servir de plataforma para investimentos, financiamento e transferência tecnológica.
Na avaliação de Anand, a corrida por esses minérios não precisa repetir o modelo histórico de exportação de recursos naturais. A combinação de reservas, energia limpa e integração regional permite que a África ocupe etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas, transformando sua riqueza mineral em capacidade industrial própria.






Comentários
Seja o primeiro a comentar.