Um grupo de acadêmicos, artistas e representantes da sociedade civil publicou, nesta quarta-feira (30), um artigo no jornal francês Le Monde, alertando a comunidade internacional sobre o avanço da extrema-direita na América Latina e os riscos iminentes para as eleições no Brasil. O texto, intitulado “No Brasil, os Estados Unidos buscam influenciar a eleição presidencial, com a cumplicidade de um dos candidatos, Flávio Bolsonaro”, afirma que a votação decidirá não apenas o próximo presidente, mas o futuro da democracia no país.

Entre os signatários de renome internacional estão os Prêmios Nobel de Economia Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz, o economista Thomas Piketty, o cantor brasileiro Chico Buarque, o ex-jogador Raí e a diretora de teatro Ariane Mnouchkine. Erika Campelo, secretária-geral da associação Autres Brésils; Gabriel Feltran, diretor de pesquisa do CNRS; Nina Santos, pesquisadora em Democracia Digital; e Youlie Yamamoto, porta-voz da Attac França, também subscrevem o manifesto.

Contexto Político e Denúncias

O manifesto faz um histórico detalhado da política brasileira recente, destacando o desgaste das instituições e da sociedade civil. Os autores mencionam a gestão da pandemia de Covid-19, a qual descrevem como mal conduzida, e a tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral em 2022 do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, segundo o texto, foi condenado a mais de 27 anos de prisão por essa tentativa. O grupo também aponta graves violações de direitos humanos e ambientais ocorridas entre 2019 e 2022, como ataques a movimentos negros e indígenas, mulheres e pessoas LGBTQI+, desmatamento recorde na Amazônia e paralisação da demarcação de terras indígenas.

Com a condenação e inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o texto aponta que o ex-presidente indicou seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, para dar continuidade à sua plataforma política. O grupo alerta que essa candidatura “representa a continuidade declarada de um projeto cujo histórico em matéria de direitos humanos e ataques à democracia é documentado e inequívoco”. O programa econômico do candidato é descrito como ultraliberal, com foco em austeridade fiscal e privatizações, o que, segundo o artigo, “ameaça deteriorar ainda mais o padrão de vida das classes populares e médias”, contrariando as iniciativas do Brasil no G20 em 2024, que defendiam a tributação de super-ricos.

Interferência Estrangeira e Apelo Internacional

O coletivo registra que Flávio Bolsonaro lançou dúvidas sobre a legitimidade do sistema eleitoral em diversas ocasiões, inclusive diante de diplomatas estrangeiros. Para os signatários, essa conduta não é acidental, mas parte de uma “preparação metódica de uma disputa judicial eleitoral”, visando contestar resultados desfavoráveis. A denúncia central é a interferência externa. O artigo menciona que o governo do presidente norte-americano Donald Trump aplicou tarifas alfandegárias ao Brasil, explicitamente como resposta ao processo contra Jair Bolsonaro. Além disso, Flávio Bolsonaro viajou a Washington em 28 de maio para se reunir com Donald Trump, o senador Marco Rubio e o vice-presidente americano, J. D. Vance, onde pediu publicamente uma supervisão internacional das eleições brasileiras.

Diante desses fatos, o texto denuncia que “uma potência estrangeira busca abertamente influenciar o resultado de uma eleição soberana, com a cumplicidade ativa de um dos candidatos”. O grupo adverte que este movimento integra uma ofensiva reacionária continental, impulsionada por Washington, que busca estabelecer uma hegemonia que ameaça a democracia e os direitos humanos na região. O coletivo enfatiza o risco histórico para o Brasil, lembrando a ditadura militar e afirmando que as novas gerações não querem reviver essa história. Concluindo, as personalidades e organizações fazem um apelo à comunidade global, solicitando que a mídia, líderes políticos e instituições europeias acompanhem o pleito com vigilância, rejeitem interferências estrangeiras e apoiem as instituições e movimentos sociais brasileiros na luta pela democracia.