Em meio à volatilidade dos preços internacionais do petróleo, o presidente Lula anunciou que a Petrobras pretende retornar ao mercado de distribuição de combustíveis. A proposta envolve a aquisição de uma distribuidora e reflete o objetivo de restaurar a presença da estatal em um segmento estratégico que foi desmantelado com a privatização da BR Distribuidora.

Atualmente, a Petrobras possui forte atuação na produção e refino de combustíveis, mas carece da estrutura que a conectava diretamente à distribuição e aos postos de venda. A iniciativa ganha relevância no cenário atual, onde o governo tem utilizado medidas como o auxílio de R$ 2,12 por litro de diesel para proteger a população do aumento dos preços internacionais.

O desmonte da BR Distribuidora e suas consequências

A BR Distribuidora, fundada em 1971, desempenhou por décadas um papel fundamental na integração da Petrobras, permitindo sua atuação desde a extração do petróleo até a entrega dos derivados ao consumidor final. O processo de desmonte começou com a venda de 28,75% das ações em 2017. Em julho de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, a Petrobras perdeu o controle da companhia ao vender mais 30% do capital por R$ 8,56 bilhões, conforme documentos do Tribunal de Contas da União. Em 2021, a Petrobras vendeu sua participação remanescente, e a antiga BR foi rebatizada como Vibra Energia, consolidando a saída da estatal do capital da empresa.

A privatização da BR Distribuidora, então a maior do país com cerca de 30% do mercado, quase 8 mil postos e atuação em 99 aeroportos, representou a perda de um instrumento crucial para conectar a produção e o refino da Petrobras ao mercado consumidor. A decisão levantou questionamentos sobre os ganhos obtidos com a privatização e a importância de uma empresa estatal em um setor tão vital.

Impacto no mercado e a estratégia de Lula

A presença da Petrobras na distribuição pode influenciar os preços que chegam ao consumidor, já que o custo final na bomba é afetado por fatores como distribuição, mistura de biocombustíveis, tributos e margens de revenda. Uma atuação direta da estatal ampliaria sua capacidade de monitorar a formação de preços e competir no mercado, sem necessariamente ditar os valores praticados por todos os postos. Estudos recentes apontaram que refinarias privatizadas, em alguns casos, praticaram preços superiores aos da Petrobras, sugerindo que a venda de ativos isolados resultou em concentração de mercado em vez da concorrência esperada.

A lógica defendida por Lula busca restaurar a integração da Petrobras, à semelhança das grandes companhias internacionais de petróleo que atuam em diversas etapas da cadeia. Essa integração proporciona escala, informações de mercado, capacidade logística e resiliência diante das flutuações globais. O anúncio de Lula se alinha a medidas governamentais que buscam coibir abusos no setor de combustíveis, como o aumento da multa máxima para práticas injustificadas, que pode chegar a R$ 500 milhões.

A discussão sobre o retorno da Petrobras à distribuição reflete visões econômicas distintas. Enquanto Flávio Bolsonaro defende a redução do Estado e privatizações, Lula propõe uma estratégia desenvolvimentista, com empresas públicas atuando como ferramentas de investimento e soberania econômica. Para Lula, setores como petróleo e energia devem ser considerados elementos de segurança econômica nacional, e o fortalecimento da Petrobras é essencial para uma política econômica independente.

Além dos combustíveis tradicionais, o retorno à distribuição pode preparar a Petrobras para a transição energética, com a rede podendo ser utilizada para biocombustíveis avançados, recarga elétrica e outros produtos futuros. A decisão de Lula é vista como uma mudança de direção, visando que a Petrobras retome um papel integral e estratégico no mercado brasileiro de combustíveis.