O jornalista e escritor Paulo Moreira Leite, cofundador de um canal de notícias e com mais de cinco décadas dedicadas ao jornalismo, discutiu a memória histórica, a resistência e os desafios da democracia brasileira em uma entrevista recente. Ele abordou aspectos de seu livro "A Mulher que Era o General da Casa" (2012), que reúne perfis de personalidades que lutaram contra a ditadura civil-militar de 1964 e pela transição para a democracia.

A obra destaca a trajetória de Therezinha Zerbini, figura central do Movimento Feminino pela Anistia. Esposa do general Euryale de Jesus Zerbini, que se opôs ao golpe, Therezinha mobilizou-se publicamente pela anistia e libertação de presos políticos. Moreira Leite descreve-a como uma mulher de posses que, em vez de se acomodar, foi para as ruas com a mesma determinação de operários e estudantes, utilizando sua posição para proteger e dar voz àqueles que lutavam pela democracia. O jornalista também ressaltou a importância de figuras como o sociólogo Florestan Fernandes e o empresário José Mindlin, que, apesar de suas diferentes origens, contribuíram significativamente para a oposição ao regime.

A força da resistência e o intervencionismo externo

A entrevista também abordou o papel de líderes religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel na legitimação moral da resistência. Contudo, para Moreira Leite, o golpe definitivo contra o regime veio com a mobilização da classe trabalhadora no final dos anos 1970. As greves operárias, lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva, mostraram que a resistência emergia de onde a ditadura menos esperava, alterando a correlação de forças no país.

Outro ponto abordado foi o encontro de Paulo Moreira Leite, quando correspondente em Washington, com o diplomata norte-americano Lincoln Gordon. Gordon teve participação decisiva na conspiração contra o presidente João Goulart, enviando despachos que o retratavam de forma exagerada. Moreira Leite observou que, embora diplomatas como Gordon alegassem ser meros "cumpridores de ordens", o suporte logístico e político dos Estados Unidos para o golpe de 1964 está amplamente documentado.

O preço da conciliação e o retorno do passado

Ao analisar a incapacidade do Brasil de responsabilizar criminalmente os torturadores da ditadura, Paulo Moreira Leite foi crítico ao apontar o caráter incompleto da redemocratização. Ele argumentou que houve um pacto, formal ou tácito, que blindou as Forças Armadas de serem julgadas. Segundo o jornalista, a abertura política foi conduzida pelas elites, que, temendo um confronto direto, não apoiaram uma ruptura popular que pudesse esclarecer os fatos históricos.

Para Moreira Leite, as lacunas deixadas por essa transição pactuada tiveram um custo alto para as instituições republicanas. Essas falhas teriam permitido que a extrema-direita voltasse a disputar a hegemonia no cenário político contemporâneo. Ele concluiu que o Brasil fez apenas um rascunho de uma nova história, sem "passar o passado a limpo". Essa recusa em confrontar as feridas históricas, movida pela conciliação permanente, leva ao apagamento da memória coletiva e permite que o passado "volte para nos assombrar".