O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, revelou em 30 de setembro, na base de Quantico, um conjunto de memorandos que estabelecem uma doutrina de autonomia tecnológica para o país. Este pacote enfatiza o controle da cadeia de suprimentos, a independência energética das instalações militares, a formação de reservas estratégicas, a proteção do espaço e do espectro eletromagnético, e a inclusão de empresários na determinação das futuras aquisições do Estado. Tais medidas, vistas por Washington como cruciais para sua segurança, são as mesmas que o governo americano frequentemente critica em outras nações, incluindo o Brasil e países do Sul Global, classificando-as como práticas comerciais desleais ou ameaças à livre circulação de dados. Além das iniciativas tecnológicas, o pacote aborda temas como assuntos religiosos, formação de cadetes e a criação de uma nova base militar, que ressoam com a política interna americana.
Autonomia e novas estruturas
Uma das principais inovações é a criação do Autonomous Warfare Command (AutoWarCom), uma entidade com autoridade equivalente à de um serviço militar, destinada a acelerar a integração de drones e sistemas robóticos nas Forças Armadas. Embora a formalização dependa do Congresso, Hegseth instituiu o Project Agincourt, liderado por Owen West e o suboficial Max Strasiser, para preparar o terreno até outubro de 2027. Este modelo busca unificar aquisição e operação em grande escala, aproximando operadores e empreendedores e descentralizando decisões para unidades de linha de frente. A formação de novos comandos é um evento raro na estrutura militar dos EUA, sendo o último o Comando Espacial, recriado em 2019.
Paralelamente, o Project Meridian, sob a coordenação de Emil Michael, diretor de tecnologia do Departamento, encarregará figuras como Elon Musk, Palmer Luckey e Newt Gingrich de mapear as necessidades tecnológicas das forças americanas nas próximas décadas, cobrindo desde cenários subterrâneos até o espaço cislunar. A participação de Musk (SpaceX) e Luckey (Anduril), cujas empresas possuem contratos bilionários com o Pentágono, levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse em veículos como The War Zone e New Republic. Hegseth, no entanto, afirmou que o projeto não visa criar novas estratégias ou políticas, mas na prática, quem define as capacidades necessárias acaba por moldar a demanda de compra, funcionando como uma política industrial direta.
Reforço da retaguarda e impacto global
O programa FORTRESS America se concentra na proteção da retaguarda, visando isolar as infraestruturas críticas de ameaças. Organizado em cinco pilares, o programa busca garantir independência energética, resiliência da cadeia de suprimentos e da base industrial de defesa, uma reserva estratégica, o endurecimento de instalações com resiliência cibernética, e a resiliência no espaço e no espectro. Hegseth prometeu repatriar a extração, refinamento e fabricação de terras raras, metais especiais, semicondutores e propelentes para solo americano, elevando energia, materiais e capacidade produtiva a matérias de segurança nacional, fora da lógica de mercado.
Este pacote, analisado em conjunto com a política externa recente dos EUA, sugere um regime de dois níveis: autonomia tecnológica para as necessidades internas e exigência de alinhamento para outras nações. A investigação aberta pelo USTR contra o Brasil em julho de 2025, envolvendo o Pix e a regulamentação de data centers pela Anatel, exemplifica essa abordagem. A Pax Silica, iniciativa americana sobre IA, é vista como concorrente da WAICO, a organização chinesa de cooperação em IA. Nas Américas, essa divisão se manifesta com a adesão de países como Argentina e Chile à Pax Silica e ao Escudo das Américas, enquanto Brasil, Cuba e Venezuela são fundadores da WAICO. A aquisição da mina Pela Ema, produtora de terras raras em Goiás, pela USA Rare Earth, empresa com participação do governo americano, reforça a tese de controle de recursos estratégicos em solo estrangeiro, com a produção destinada ao governo Trump, independentemente da opinião do governo brasileiro.






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