Ex-ministro da Justiça e indicado ao Supremo Tribunal Federal por Michel Temer, construiu sua trajetória política no campo da direita, foi indicação de Temer após o golpe contra Dilma, e sua candidatura foi apoiada pela extrema-direita.
Ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça, André Mendonça foi apresentado por Bolsonaro como o candidato “terrivelmente evangélico”, tornando-se uma das principais referências do clã Bolsonaro em relação ao Judiciário.
Segundo informações publicadas pela imprensa, Moraes e Mendonça tiveram uma reunião tensa na segunda-feira, 31 de agosto, após o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
André Mendonça, relator do caso, retirou o sigilo de parte das informações e defendeu que os novos elementos fossem levados ao plenário do Supremo.
Os dois ministros discutiram o rumo das investigações, com Moraes questionando Mendonça sobre a apuração que passou a atingir seu nome em uma discussão ainda mais acalorada.
André Mendonça, relator de investigações relacionadas ao caso Banco Master, autorizou a divulgação de diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro. As mensagens trouxeram referências a Alexandre de Moraes e a outras autoridades. Mendonça defendeu que o material fosse submetido à análise do plenário do STF.
Em uma das mensagens divulgadas, Vorcaro perguntou a Moraes se seria possível “reverter” a situação com Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. Outros trechos indicam que o banqueiro buscava informações sobre o avanço das investigações e chegou a perguntar se deveria deixar o país antes de ser preso.
Ao mesmo tempo, novas mensagens e áudios divulgados nesta quarta-feira (02/09) mostram que o próprio André Mendonça também teve um encontro com Vorcaro. O ministro confirmou ter recebido o banqueiro uma única vez, em março de 2025, embora tenha apresentado uma versão diferente sobre as circunstâncias e o objetivo da reunião.
Por que a crise foi imediatamente concentrada em um único ministro, se o próprio material disponível revela relações de Vorcaro com diferentes personagens do sistema político e judicial?
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou o procedimento adotado. Segundo a posição divulgada, uma investigação que atingisse um ministro do Supremo exigiria encaminhamento institucional específico e não poderia simplesmente ser conduzida pelo relator com a Polícia Federal.
Integrantes da Corte também questionaram a forma como Mendonça conduziu determinados atos da investigação, argumentando que uma apuração envolvendo outro ministro do STF possui regras específicas e não poderia ser transformada em uma investigação individual conduzida unilateralmente.
O Supremo está diante da possibilidade de precisar lidar com informações que envolvem integrantes da própria instituição.
Moraes é um homem oriundo do campo da direita e tornou-se uma das principais figuras no enfrentamento à extrema-direita brasileira. Quando o bolsonarismo avançou contra as instituições e o próprio ministro passou a ser alvo de ameaças e planos criminosos, Moraes reagiu. Teve papel relevante nas investigações e nos julgamentos relacionados à tentativa de golpe de Estado e aos atos de 8 de janeiro. Foi quem julgou e condenou Jair Bolsonaro.
Se Vorcaro estabeleceu relações com diferentes ministros, familiares de ministros, políticos, empresários e autoridades, a investigação não pode escolher previamente quais relações merecem atenção e quais devem ser ignoradas. Não pode haver investigação seletiva. Nem para perseguir, nem para proteger.
Alexandre de Moraes representa uma direita institucional e André Mendonça representa uma trajetória diretamente vinculada ao projeto bolsonarista. Flávio Bolsonaro representa a continuidade política desse projeto. E todos, de uma maneira ou de outra, aparecem atravessados pelos novos desdobramentos do caso.
Há anos, a extrema-direita brasileira construiu uma campanha sistemática contra a Corte, transformando ministros em inimigos públicos e alimentando a narrativa de que o Judiciário seria um obstáculo à vontade popular. Alexandre de Moraes tornou-se o principal alvo dessa ofensiva justamente por sua atuação no enfrentamento às redes golpistas e aos responsáveis pelos ataques à democracia.
Por isso, uma crise que atinja sua imagem não produz consequências apenas pessoais: ela atinge também o Supremo e pode ser utilizada para colocar sob suspeita decisões que condenaram àqueles que atentaram contra a ordem democrática.
Tem muito simbolismo esta assertiva “Se quiser fechar o STF, você sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo.” –Eduardo Bolsonaro.
Isso não significa, evidentemente, que Alexandre de Moraes não deva ser investigado. Ao contrário. Se existem indícios relevantes, eles precisam ser apurados. O que não se pode ignorar, porém, é o contexto político em que essa crise se desenvolve. Investigar possíveis irregularidades é uma obrigação; transformar uma investigação em instrumento para incendiar as instituições é outra coisa.
André Mendonça sendo um ministro de profunda formação religiosa e apresentado por Jair Bolsonaro como o candidato “terrivelmente evangélico”, seria razoável esperar de Mendonça uma postura comprometida com a serenidade e a preservação institucional. No entanto, o que emerge dos recentes acontecimentos, é que sua atuação não levou concórdia ao Supremo, mas aprofundou a intriga e a esgrima política dentro da Corte.
André Mendonça não comete esses abusos e ilegalidades por desconhecimento ou falta de consciência sobre as consequências de seus atos. É preciso considerar a possibilidade de que sua atuação tenha um propósito político e jurídico: criar um ambiente de conflito, intriga e desordem institucional.
Em vez de contribuir para a harmonia e para a estabilidade do Supremo Tribunal Federal, Mendonça parece alimentar uma escalada de tensão que, inevitavelmente, repercute sobre processos de enorme relevância.
E aqui surge uma questão ainda mais preocupante: até que ponto essa conduta pode comprometer a própria investigação relacionada ao banco? Ao multiplicar conflitos, questionamentos e possíveis irregularidades processuais, cria-se um cenário em que a ação pode se tornar vulnerável a contestações e até mesmo a uma eventual anulação.
André Mendonça não comete esses abusos e ilegalidades por desconhecimento ou por falta de consciência das consequências de seus atos. É preciso considerar que sua atuação possa estar contribuindo deliberadamente para a criação de um ambiente de conflito, tensão e desordem institucional. Em vez de colaborar para o funcionamento equilibrado do Supremo Tribunal Federal, Mendonça parece alimentar um impasse permanente, cuja consequência pode ultrapassar as disputas internas da Corte.
A questão se torna ainda mais grave quando se observa a investigação relacionada ao banco. Até que ponto a sucessão de conflitos, questionamentos e possíveis irregularidades pode comprometer o próprio andamento da ação? Ao criar um cenário de tensão e contestação, abre-se espaço para que o processo se torne vulnerável a questionamentos jurídicos e, eventualmente, até a uma tentativa de anulação. É preciso perguntar se esse impasse é apenas consequência da atuação do ministro ou se há, por trás dele, uma estratégia que pode acabar beneficiando aqueles interessados no enfraquecimento da investigação.
André Mendonça parece estar acometido de uma postura persecutória, marcada pela desconfiança permanente e pela necessidade de identificar inimigos ao seu redor. Colegas de tribunal e policiais federais passam a ser vistos como potenciais adversários, numa lógica em que a divergência se transforma facilmente em conspiração. Esse comportamento pode alimentar uma dinâmica perigosa para as instituições, especialmente quando parte de alguém investido de tamanho poder. A paranoia política e a construção permanente de inimigos são características frequentes de sujeitos com vocação autoritária e manipuladora.
Se essa escalada não for contida pelos limites institucionais, o estrago pode ser profundo. O Brasil já conhece os efeitos de uma atuação politicamente orientada dentro do sistema de Justiça. Sérgio Moro é um exemplo de como a instrumentalização de instituições e processos pode produzir consequências devastadoras para a democracia e para a vida política nacional. Até onde André Mendonça pretende levar esse conflito e a quem interessa o caos que pode resultar dele.
E, diante de uma crise dessa dimensão no Supremo Tribunal Federal, há o silêncio de Lula. E reconhecer que o silêncio diante de uma crise institucional dessa gravidade não parece próprio de um estadista. A defesa da democracia exige respeito à independência dos Poderes, e exige capacidade política para compreender quando uma crise deixa de ser um problema interno de uma instituição e passa a representar um risco para o conjunto do país.
A possibilidade de que o caos institucional sirva para enfraquecer ou comprometer o andamento de uma investigação. A quem interessa esse desgaste? E, sobretudo, quem pode se beneficiar caso o processo seja inviabilizado ou se torne passível de anulação?
A concórdia não significa silêncio diante de suspeitas, mas a responsabilidade institucional exige que investigações sejam conduzidas com rigor, transparência e respeito aos procedimentos.
Quando uma crise é conduzida de forma a produzir instabilidade e ampliar a guerra política, é legítimo perguntar: quem se beneficia?
O caos nunca é neutro. A defesa da democracia não pode depender da criação de autoridades intocáveis.
Francisco Celso Calmon.
Leticia Vieira de Mendonça.






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