Dietrich Bonhoeffer escreveu em 1942, no ensaio “Dez anos depois”, a reflexão “Sobre a estupidez”, a partir da experiência de ver a Alemanha culta se submeter a Hitler e à escalada nazista.

Para o teólogo alemão, o problema não estava na falta de inteligência, mas na decisão de entregar a outra pessoa o trabalho de julgar, obedecer sem questionar e aceitar argumentos já dentro de uma cerca mental.

obediência, cultura e autoritarismo

Bonhoeffer observou professores, funcionários, religiosos e cidadãos instruídos repetindo absurdos com a serenidade de quem julgava cumprir um dever. Na visão dele, a estupidez surgia quando alguém abria mão do próprio juízo.

O nazismo, segundo essa leitura, mostrou que educação e cultura não bastam para impedir a barbárie. A Alemanha de Goethe, Beethoven e Kant também formou técnicos, juristas e burocratas para sustentar o regime.

O texto lembra ainda que um diploma pode ensinar a usar instrumentos, mas não garante coragem para contrariar ordens, romper com o grupo ou enfrentar a maioria. No ambiente digital, essa fragilidade ganhou velocidade.

redes sociais e certezas prontas

Uma pesquisa da Unesco em 2024, com 500 influenciadores de 45 países, apontou que dois terços não verificavam sistematicamente as informações antes de publicar. Quatro em cada dez tratavam curtidas e visualizações como sinal de credibilidade.

No Brasil, essa lógica passou a dominar parte do debate público, com mobilização de identidades, fabricação de inimigos e troca de discussão por palavras de ordem. Bonhoeffer também não pode virar instrumento para chamar os outros de estúpidos, mas como alerta sobre a facilidade de abandonar o pensamento por conforto e obediência.