A disputa eleitoral moderna transcende os métodos tradicionais de campanha, como debates e programas de governo. Atualmente, ela se manifesta em sistemas de recomendação, redes de influência, operações coordenadas e conteúdos sintéticos, que moldam o que milhões de pessoas consomem, replicam e aceitam como verdade. Uma investigação recente desvenda a infraestrutura política do que se pode chamar de 'caos', revelando como a luta pelo poder evoluiu para uma manipulação da percepção pública.

Onde a verdade se torna ferramenta de manipulação

A manipulação da percepção não exige necessariamente a criação de fatos falsos. Um vídeo autêntico de Alexandre de Moraes, por exemplo, foi descontextualizado em setembro de 2026. Imagens antigas do ministro, proferindo palavras verdadeiras, foram associadas a uma crise bancária e a um agradecimento a Flávio Dino, quando, na realidade, a gravação era de agosto e se referia a outro assunto. Não foi preciso adulterar o vídeo ou a voz; bastou retirar um fragmento verdadeiro de seu contexto original e inseri-lo em uma narrativa completamente diferente.

Este método expõe um problema central nas eleições atuais. Enquanto antes se procurava a manipulação em mentiras evidentes – fotos alteradas, números inventados, frases nunca ditas –, hoje a fabricação da percepção pode ser mais sutil. Um vídeo genuíno pode ter sua data alterada, uma estatística correta pode receber uma causa que não possui, e uma declaração pode ser editada, perdendo seu contexto original. Nesses casos, o fato em si permanece verdadeiro, mas a relação entre os fatos é distorcida. Reduzir essa dinâmica a uma simples guerra entre verdade e notícias falsas é insuficiente, pois a própria realidade pode ser matéria-prima para a manipulação, sendo recortada, deslocada e repetida para preencher lacunas e criar novas narrativas.

A máquina por trás do que vemos

Nos dispositivos móveis, a informação raramente chega de forma bruta. Existe uma infraestrutura complexa que classifica, recomenda, repete e descarta conteúdos antes que cheguem aos olhos do usuário. O feed de notícias não é neutro, mas uma seleção contínua e personalizada, moldada a cada interação. Algoritmos calculam quais conteúdos têm maior probabilidade de atrair atenção, gerar engajamento ou prolongar a permanência na plataforma. O poder da persuasão começa antes do convencimento, na disputa pelo que será exibido ao público.

Diferentemente dos meios de comunicação tradicionais, que tinham uma hierarquia editorial relativamente estável, as plataformas digitais oferecem uma personalização extrema. Duas pessoas podem ter experiências de conteúdo radicalmente distintas no mesmo dia. Um estudo de 2026, publicado na Nature por William J. Brady e colaboradores, durante a eleição presidencial dos EUA em 2024, comparou feeds ordenados por engajamento com feeds cronológicos. Os pesquisadores descobriram que os feeds baseados em engajamento expunham os usuários a mais conteúdo político marcado por indignação moral, conflito e toxicidade, levando a uma percepção de maior animosidade entre grupos políticos. O algoritmo não incitou o ódio diretamente, mas alterou a amostra da sociedade que aparecia aos olhos dos usuários, mostrando como a infraestrutura de recomendação influencia a percepção.

Repetição, emoção e identidade na formação da crença

Ver algo repetidamente, embora não garanta crença, altera o terreno sobre o qual a convicção se forma. Em 2023, Valentina Vellani, Sarah Zheng, Dilay Ercelik e Tali Sharot demonstraram que a exposição prévia a uma informação aumenta a percepção de sua precisão, tornando-a mais familiar. Nas redes sociais, essa familiaridade se une à emoção. Sentimentos como medo, raiva e indignação não são meros ruídos políticos; eles funcionam como sinais de prioridade, direcionando a atenção e moldando respostas. Um crime pode ser usado para gerar sensação de insegurança generalizada, uma decisão judicial para criar a ideia de perseguição, e uma declaração isolada, repetida no enquadramento correto, para representar um grupo inteiro. O conflito é amplificado, fazendo o adversário parecer mais hostil e onipresente. Repetição, emoção e identidade se reforçam mutuamente, estabilizando respostas a perguntas primitivas sobre quem deve ser temido ou quem merece confiança, antes mesmo da escolha de um candidato.

A propaganda aprende a dialogar com cada eleitor

Por grande parte do século XX, a propaganda política consistia em transmitir uma mensagem única para uma grande população através de rádio, TV e outros meios. As plataformas digitais romperam esse modelo ao transformar o comportamento em dados e os públicos em segmentos. A inteligência artificial trouxe uma nova camada, permitindo que a mensagem seja produzida, modificada e respondida em tempo real durante a interação. Em 2025, Hause Lin, Gabriela Czarnek, David Rand e uma equipe internacional testaram essa capacidade em eleições nos EUA, Canadá e Polônia. Conversas com sistemas de IA programados para defender candidatos produziram mudanças mensuráveis nas preferências declaradas dos participantes, superando os efeitos de anúncios políticos tradicionais. Embora o estudo não tenha medido votos diretos, ele demonstrou que máquinas capazes de responder a argumentos individualmente podem gerar persuasão política observável. A grande inovação é a capacidade de produzir variações, responder objeções e sustentar interações persuasivas em larga escala, com um custo muito menor. Isso não torna cada eleitor uma 'fechadura' com uma chave de dados, mas multiplica a capacidade de persuasão, tornando a propaganda mais industrializada, mas com a capacidade de parecer individualizada.

O Brasil no centro dessa transformação digital

O Brasil não chegou a essa realidade digital de repente. O ecossistema distribuído em plataformas foi construído eleitoralmente ao longo de quase uma década. Em 2018, Victor Piaia e Marcelo Alves analisaram 194.710 mensagens de 21 grupos de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp, observando forte concentração de postagens em poucos participantes, circulação constante de links para YouTube e Facebook, e ações centralizadas para gerenciar a imagem do candidato e coordenar votos para sua base parlamentar. Essa análise evidencia a integração profunda do país nesse cenário de fabricação de percepção política.