O crédito rotativo do cartão de crédito, que apresenta a taxa de juros mais elevada do mercado financeiro brasileiro, registrou um volume recorde de contratações em 2026. A situação se tornou uma prioridade para o governo federal, que busca conter o crescente endividamento da população. Diante da escalada, o presidente Lula afirmou na quinta-feira (1º) que está em discussões avançadas com o Banco Central para propor a limitação de apenas um cartão de crédito por pessoa no país.

Dados recentes do Banco Central revelam a seriedade do cenário: as concessões na linha do rotativo atingiram R$ 311 bilhões nos primeiros oito meses de 2026, configurando o maior volume da série histórica para o período. Em comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, quando as operações somaram R$ 266 bilhões, o aumento indica uma crescente dependência dessa modalidade de crédito. O montante parcial acumulado até agosto já se aproxima do total registrado ao longo de todo o ano de 2025, que fechou em R$ 403 bilhões.

Preocupação com o Endividamento e Novas Propostas

O presidente Lula criticou a facilidade com que as instituições financeiras concedem limites de crédito, ressaltando o impacto direto nas famílias e na economia doméstica. Ele mencionou um caso de um pai que recebeu o quarto cartão de crédito e acumulou uma dívida de R$ 80 mil, enfatizando a necessidade de uma reformulação econômica e de "moralizar" a questão do crédito.

A modalidade, ativada automaticamente quando o consumidor não quita o valor total da fatura até o vencimento, cobra a taxa de juros mais alta do mercado: impressionantes 445% ao ano registrados em agosto deste ano. Esse patamar contrasta drasticamente com outras opções de crédito no país, como o crédito consignado, cujas taxas anuais variam de cerca de 24% a 56%.

Analistas financeiros recomendam que os bancarizados evitem essa forma de crédito devido ao custo abusivo, sugerindo a quitação total do saldo da fatura mensalmente. O número de pessoas afetadas por esses juros elevados é massivo. Conforme o Banco Central, o Brasil tinha 101 milhões de usuários de cartão de crédito no início deste ano, com aproximadamente 40 milhões de brasileiros utilizando a linha do crédito rotativo em janeiro.

Inadimplência e Contexto Pós-Pandêmico

A consequência direta de juros tão altos é um índice de inadimplência devastador, que alcançou a marca de 63,5% na modalidade. Na prática, mais de R$ 60 a cada R$ 100 concedidos no rotativo não são pagos pelos tomadores.

A dinâmica dessa linha financeira mudou significativamente após a pandemia. Segundo o histórico do Banco Central, entre 2012 e 2020, as concessões anuais do crédito rotativo nunca haviam ultrapassado R$ 225 bilhões. A situação foi impulsionada em 2020 e 2021 pelas transferências do Auxílio Emergencial. No entanto, com o fim do benefício a partir de 2022 e o pico inflacionário do período pós-pandemia, o uso do rotativo disparou, com desembolsos que superaram R$ 400 bilhões ao ano em 2025.

Em março deste ano, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou que a população passou a incorporar linhas emergenciais e de custo proibitivo ao orçamento mensal. Ele ressaltou a importância de "produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito".

No ano passado, o governo federal lançou o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, que liberou R$ 130 bilhões até junho deste ano. Essa medida permite o uso do FGTS como garantia do empréstimo, embora entidades de defesa do consumidor orientem cautela. Além disso, desde janeiro de 2024, está em vigor o teto aprovado pelo Congresso Nacional e pelo governo que limita o saldo devedor do rotativo: o valor total cobrado em juros e encargos não pode exceder o valor original da dívida.