247 – O presidente da China, Xi Jinping, defendeu que os países do Oriente Médio discutam uma reformulação da ordem de segurança regional e resistam a interferências externas durante visita ao Egito nesta quarta-feira (2). A viagem ocorre em meio ao esforço de Pequim para ampliar sua influência diplomática e econômica na região, num momento de questionamentos sobre o papel dos Estados Unidos após meses de conflito envolvendo o Irã. As informações são da Reuters.

Esta é a primeira viagem de Xi ao Oriente Médio em quatro anos. No Cairo, ele foi recebido pelo presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, em uma cerimônia militar, em gesto que simboliza a aproximação crescente entre os dois países.

De acordo com a agência estatal chinesa Xinhua, Xi afirmou que as nações da região devem ser “donas de seu próprio destino” e considerar a construção de uma nova “arquitetura de segurança”. O presidente chinês também disse que Pequim está disposta a trabalhar com países do Oriente Médio para proteger rotas marítimas estratégicas, tema que ganhou relevância após a interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz e em Bab al-Mandeb.

A visita acontece em um contexto de reavaliação das alianças estratégicas por parte de parceiros tradicionais de Washington no Oriente Médio. O Egito é um dos principais aliados militares dos Estados Unidos na região e recebe cerca de US$ 1,3 bilhão por ano em ajuda militar norte-americana. Ainda assim, o governo de Sisi vem ampliando a cooperação econômica e militar com a China nos últimos anos.

Os dois governos concordaram em aprofundar a cooperação em segurança e a coordenação no combate ao terrorismo, segundo a Xinhua. Também avançaram em entendimentos para expandir parcerias em centros de dados, semicondutores, cadeias de suprimento de metais críticos e no uso das moedas nacionais em comércio e investimentos, conforme comunicado conjunto.

Para o Egito, o fortalecimento da relação com Pequim integra uma estratégia de diversificação de parcerias internacionais. Em artigo publicado antes da visita, Sisi afirmou que o país segue uma política de “equilíbrio estratégico” em meio à crescente rivalidade global.

O ex-diplomata egípcio Ayman Zaineldine disse à Reuters que o Cairo busca ampliar seu campo de relações com grandes potências. “O Egito quer ampliar o círculo de suas relações com grandes potências mundiais, incluindo a China”, afirmou. “Portanto, as visões convergem.”

Do lado chinês, o Egito é visto como parceiro relevante por sua localização estratégica, sua influência regional e seu papel em temas como a questão palestina e a conexão com a África. H. A. Hellyer, pesquisador do centro de estudos Royal United Services Institute, afirmou que o país representa um ativo importante para Pequim. “O Egito representa algo bastante valioso para Pequim: um grande mercado doméstico para oportunidades de investimento e muito peso diplomático na região, incluindo a questão da Palestina, bem como conectividade com a África”, disse.

A cooperação militar entre Egito e China também tem ganhado visibilidade. No mês passado, os dois países realizaram os exercícios “Águias da Civilização”, que incluíram uma rara simulação de combate aéreo com caças chineses J-16 e aeronaves francesas Rafale.

No campo econômico, a relação bilateral também se intensifica. Com mais de 110 milhões de habitantes e sede do Canal de Suez, o Egito é um mercado importante para a China. Segundo a Reuters, o país importou cerca de US$ 10 bilhões em produtos chineses apenas no primeiro semestre deste ano.

Os investimentos chineses cresceram de forma acelerada desde 2014, quando Sisi visitou a China e assinou um acordo de parceria estratégica. Desde então, empresas chinesas passaram a investir bilhões de dólares em portos de contêineres, projetos de hidrogênio verde e instalações para produção de tubos de ferro, pneus de automóveis e satélites.

O gabinete egípcio afirma que a Zona Econômica do Canal de Suez atraiu cerca de US$ 4 bilhões em investimentos chineses. Nesta quarta-feira, autoridades egípcias anunciaram planos para ampliar uma área industrial desenvolvida pela China na região. A ZC Rubber Group também assinou um acordo preliminar para estudar a construção de um complexo de fabricação de pneus avaliado em US$ 500 milhões.

A recepção à visita de Xi mobilizou a capital egípcia nos últimos dias. Ruas do Cairo foram decoradas com bandeiras chinesas e imagens de símbolos dos dois países, como a Esfinge do Egito e a Grande Muralha da China.