Ao contrário de Ulisses, Alexandre de Moraes cedeu às tentações das sereias da corrupção mais pesada de que se tem notícia na República. Por mais que as ligações do escritório da esposa, Viviane Barci, no papel de Penélope, fossem conhecidas e examinadas desde o início do ano, ninguém poderia imaginar que se chegaria a provas tão robustas sobre a participação do ministro no contrato de R$ 131 milhões assinado entre o banco e a banca. Com direito a revisão final de Moraes e acesso premium de Daniel Vorcaro a ele, o episódio causa estupefação mesmo em um País acostumado a escândalos sucessivos de corrupção. A ousadia de Moraes bateu recordes.

Assim como Sergio Moro antes dele, Xandão entrou para o imaginário coletivo ganhando a estrela de xerife ainda em 2014, quando comandava operações midiáticas de invasão de cracolândias como secretário de Segurança de São Paulo. A fama nacional chegou pela atuação no Supremo, indicado por Michel Temer e em meio a pontuações de plágio em trabalhos acadêmicos. No cargo de ministro do Supremo, tornou-se um intocável, combinando, na mesma pessoa, a insígnia e a toga, investigando e julgando. No plenário, várias vezes resvalou pelo estilo “prendo e arrebento”. Aplicou penas de até 17 anos de prisão para os vândalos da tentativa de golpe do 8 de janeiro, criando um debate sobre dosimetria que serve de pretexto para a direita baixar a carta da anistia. A exemplo do juiz de Curitiba, Moraes incentivou o culto em torno da sua personalidade, com os louros por ter vencido Moro primeiro e os golpistas depois. Essa é a dimensão inédita da decepção.

A sociedade precisa parar de fabricar heróis que se parecem com os dos livros de mitologia, perfeitos e imbatíveis. O que se tem são pessoas de carne e osso que cometem crimes pelos mais diferentes motivos, da cobiça à paixão. Os dois elementos estão no enredo da saga de Moraes entre a fama de juiz mais rigoroso do Brasil e os bastidores de amor por Viviane e consultoria direta a Vorcaro. Ele precisou ser um ótimo ator, como são todos os que se infiltram nos meios do poder com planos sinistros.

Moraes agora está a prêmio. A renúncia ao cargo pode ser uma estratégia extrema de defesa, que retiraria dele a prerrogativa de foro especial. As investigações seriam remetidas à primeira instância, abrindo todo um caminho de recursos e adiamentos. Qual trilha o anti-Ulisses vai escolher?

O STF pode ganhar uma maioria de juízes alinhados com os já instalados André Mendonça e Kassio Nunes Marques, a depender do resultado das eleições presidenciais. Nesse caso, permanecer sob o julgamento da Corte pode ser um péssimo negócio para Moraes. Mesmo na atual configuração, a posição dele é de completa vulnerabilidade. O engodo, ao que se sabe até aqui, foi longe demais para o apetite dos demais ministros. O processo será acompanhado minuto a minuto pela mídia. Fora da jurisdição do Supremo, tem mais chances de diluição nas atenções.

A decisão do presidente Edson Fachin sobre levar o caso ao plenário do Supremo, esperada para as próximas horas, vai definir o caminho das investigações contra Moraes. Como lembrou o advogado constitucionalista Pedro Serrano ao Boa Noite 247, Fachin não tem nenhuma obrigação de dar urgência à tramitação do pacote de denúncias e provas reunido por André Mendonça. “O melhor será deixar a análise desse caso para depois das eleições”, recomenda o jurista. “Agora, tanto o caso pode interferir no processo eleitoral como o ambiente político terá influência no processo. Não é preciso ter pressa”.