Você pode não acreditar em previsão do tempo, mas o temporal acredita em você. A semana passada deixou isso claro de Norte a Sul do Paraná: chuva intensa, ventos de 100 km/h, rios subindo dois metros em 24 horas e Londrina batendo a média histórica de outubro em apenas 13 dias. E não foi pouca água: foram 220,6 milímetros contra os 171,6 da média. Em outras 24 cidades, mesma história — Cruzeiro do Iguaçu passou de 360 mm, Capanema, 278 mm. Isso não é anomalia: é consequência.

O Inmet e o Simepar avisaram. Emitiam alertas laranja desde o início da semana, cobrindo os 399 municípios paranaenses, prevendo ventos de até 100 km/h e granizo. Mas avisar não é evitar: a chuva veio, derrubou árvore, interrompeu energia, alagou rua e deixou o caos nas rodovias estaduais. O DER-PR teve de montar esquemas de pare e siga e interditar trechos inteiros — justo quando já havia programado bloqueios em 19 pontos para obras de manutenção. É o tipo de coincidência que só não é engraçada porque atrasa quem trabalha.

Quando o rio sobe, a conta desce

Em Jataizinho, na Região Metropolitana de Londrina, os rios Tibagi e Jataizinho subiram dois e 1,5 metro, respectivamente, em um único dia. A Defesa Civil entrou em estado de atenção. Mais ao sul, no Rio Paraná, o nível subiu quase cinco metros de uma vez, obrigando Itaipu a alertar sobre impactos em estruturas e residências — especialmente no lado paraguaio, onde cerca de 60 famílias precisaram ser removidas. É o tipo de tragédia que começa discreta, com uma chuva que parecia passageira, e termina com gente perdendo casa.

O que ninguém está dizendo: isso não é só culpa do El Niño. O aquecimento do Pacífico explica o aumento das chuvas, mas não explica por que a infraestrutura municipal desmorona na primeira tempestade forte. Londrina registrou o maior volume de chuvas desde 1997 e, de quebra, viu serviços públicos travarem: obras paradas, vias sem manutenção, Defesa Civil sobrecarregada. Setembro já tinha sido recorde; outubro veio pior. A cidade não estava preparada em setembro e continuou não estando em outubro. Isso não é falta de aviso — é falta de investimento.

A licitação que sumiu e o que ela diz sobre prioridades

Enquanto o temporal testava a resistência de ruas e rodovias, o governo do Paraná decidiu revogar a licitação de R$ 581 milhões para expandir o programa Olho Vivo, de videomonitoramento com inteligência artificial. O Tribunal de Contas tinha apontado fragilidades no edital e sobrepreço — e a decisão veio na sexta-feira, sem alarde. Foram quase R$ 600 milhões que não vão virar 20 mil câmeras, mas que talvez pudessem virar drenagem, ponte reforçada, equipe de manutenção. Não estou dizendo que segurança pública não importa; estou dizendo que um estado que apanha de chuva todo ano precisa escolher melhor onde gastar.

E tem mais: três motoristas foram presos por embriaguez ao volante em rodovias do Norte do Paraná no fim de semana, entre Cambé, Ibiporã e Sertanópolis. Bafômetro acima de 0,7 mg/L, feriado religioso, estrada molhada. Sorte que não virou tragédia — mas tragédia evitada não entra em estatística, não vira manchete, não muda comportamento.

A semana que vem promete tempo mais estável, segundo o Simepar. Mas estável não quer dizer seco: o solo encharcado demora para drenar, e qualquer chuva extra pode trazer de volta o caos. Você, que roda o Paraná de carro ou ônibus, já sabe: olho na previsão, pé no freio e um plano B na mochila. Porque o temporal sempre volta — e a estrutura pública, pelo visto, continua no mesmo lugar.

A coluna Café com Pinhão sai todo domingo na seção Paraná do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.