A veterana ativista Sophie de Bruyn, uma das últimas líderes ainda vivas da histórica Marcha das Mulheres Sul-Africanas de 1956, declarou no último domingo (9), em Pretória, que a liberdade pela qual lutou se transformou em um "paradoxo doloroso". A declaração foi feita durante a cerimônia do Dia Nacional da Mulher, nos Union Buildings, local onde, há quase 70 anos, ela liderou mais de 20 mil mulheres contra as leis de circulação do apartheid. De Bruyn alertou que a desigualdade social, a violência de gênero e a corrupção estão minando as conquistas democráticas do país.

Com o coração pesado, conforme suas próprias palavras, a ativista questionou como é possível celebrar as vitórias históricas quando a realidade atual é tão decepcionante. O evento, com o tema “Mulheres empoderadas, nações fortalecidas”, contou com a presença de diversas autoridades, incluindo o presidente Cyril Ramaphosa, a ministra das Mulheres, Juventude e Pessoas com Deficiência, Sindisiwe Chikunga, a presidente da Suprema Corte, Mandisa Maya, e a presidente da Assembleia Nacional, Thoko Didiza. Pela primeira vez, a África do Sul tem mulheres ocupando simultaneamente os mais altos cargos na Suprema Corte e na Assembleia.

Desigualdade e Falhas na Governança

Sophie de Bruyn criticou duramente a situação do país, afirmando que a igualdade jurídica não se traduziu em segurança para as mulheres. Ela associou os altos índices de violência de gênero e feminicídio a falhas na governança, acusando líderes de desviar recursos públicos. "Lutamos para banir as leis de circulação. No entanto, hoje nossas mulheres são prisioneiras em suas próprias casas", disse ela, lamentando a violência que atinge mulheres e meninas. A ativista destacou que a luta original era para desmantelar a opressão sistêmica, mas hoje se observa a persistência da pobreza, a falta de acesso a água potável, moradia e a corrupção sistêmica.

De Bruyn manifestou profunda decepção com os indicadores sociais da África do Sul, que permanece como um dos países mais desiguais do mundo. Ela ressaltou que a pobreza e a desigualdade afetam predominantemente a população negra, feminina e jovem, evidenciando o impacto duradouro da segregação racial. A ativista também expressou solidariedade às mulheres e crianças palestinas, citando Nelson Mandela ao afirmar que a liberdade da África do Sul é incompleta sem a liberdade do povo palestino.

Convocação para Uma Nova Mobilização

Refletindo sobre sua longa trajetória de ativismo, iniciada ainda jovem com sua atuação em sindicatos e na Campanha de Desafio contra Leis Injustas, Sophie de Bruyn relembrou sua participação na marcha de 1956, quando tinha apenas 18 anos. Ela enfatizou a coragem e a determinação daquelas mulheres, que enfrentaram o regime do apartheid e proferiram o lema “Você atinge uma mulher, atinge uma rocha, e será esmagado!”.

Diante do cenário atual, que inclui o alto desemprego entre os jovens e a persistência de problemas sociais, De Bruyn convocou uma nova mobilização. "Vamos marchar novamente, não contra as leis de circulação, mas desta vez contra o crime e a insegurança, a pobreza, a corrupção, o desemprego, a falta de moradia, a violência e os muitos, muitos males que restringem seu futuro, sua segurança, sua liberdade e sua prosperidade." A ativista encerrou seu discurso pedindo que os nomes das mulheres sobreviventes da marcha de 1956 sejam encaminhados à Fundação Albert Luthuli para reconhecimento formal.