A Polícia Federal (PF) revelou que o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, teve participação direta nas negociações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. Mensagens obtidas em dispositivos móveis apontam que Rocha atuou em conjunto com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acompanhando de perto as etapas que envolviam desde o aumento de capital do BRB e a aquisição de carteiras de crédito até a tentativa de fusão entre as instituições financeiras. A investigação sugere o pagamento de R$ 80 milhões em propina, repassados por um motorista de Vorcaro a Leonardo Valverde, empresário considerado homem de confiança de Ibaneis Rocha, entre novembro de 2024 e agosto de 2025.
Em sua proposta de colaboração premiada com a Justiça, Daniel Vorcaro afirmou que a solicitação de propina por parte de Ibaneis Rocha ocorreu logo após o primeiro contato formal em setembro de 2024. O acordo ilícito, acertado com Valverde, previa R$ 400 milhões pela fusão bancária. Este montante seria dividido em R$ 200 milhões em dinheiro e R$ 200 milhões via um contrato simulado com um escritório de advocacia. Além disso, o ex-governador teria uma participação de 5% na nova estrutura bancária através de uma empresa de fachada. Vorcaro declarou ter adiantado cerca de R$ 80 milhões em dinheiro vivo, entregues a Valverde em Brasília.
Esquema de Repasses e Negociações
Documentos da Receita Federal, citados na investigação, mostram que Valverde encaminhou dados cadastrais e bancários de uma sociedade empresária sob sua administração a Vorcaro em outubro de 2024, ativando, em seguida, a função de apagamento automático das mensagens. A parcela referente ao contrato advocatício não foi paga devido ao veto definitivo do Banco Central (BC) à operação em setembro de 2025.
A aproximação entre as instituições teve início em 18 de setembro de 2024, em um almoço na casa de Vorcaro, articulado por Thiago Claudino. O encontro contou com a presença de Ibaneis, seu filho Caio Rocha, o então secretário de Economia do DF, Ney Ferraz, William Guimarães e Leonardo Valverde. Posteriormente, um jantar incluiu também Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. Após esses encontros, Ibaneis aprovou a ampliação de capital do BRB, inicialmente em R$ 500 milhões, depois elevada para R$ 750 milhões em outubro de 2024. Com o aporte, fundos alinhados ao Master ingressaram no BRB, permitindo ao banco público adquirir R$ 9,5 bilhões em carteiras de crédito da instituição privada até fevereiro de 2025.
O Colapso da Operação e o Veto do Banco Central
A estratégia inicial de aliviar problemas de liquidez do Master mudou para o BRB assumir o controle direto do Master, em uma operação batizada internamente como “Projeto Vértice” em fevereiro de 2025. Apesar de alertas sobre a possível contrariedade do Banco Central, o BRB anunciou em 28 de março de 2025 a aquisição de 58% do controle do Master, após sanção legislativa acompanhada por Ibaneis Rocha. Paralelamente, a PF identificou vantagens indevidas destinadas a Paulo Henrique Costa, que planejava comandar o novo conglomerado. A investigação apurou que o Master adquiriu seis imóveis de alto padrão, totalizando R$ 146,6 milhões, um dos quais destinado à moradia do executivo.
O negócio começou a desmoronar em abril de 2025, quando auditores do BRB detectaram irregularidades nas carteiras de crédito consignado originadas pela empresa Tirreno e comercializadas pelo Master. A recusa do Master em fornecer dados, sob a alegação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), levou à constatação de que parte dos empréstimos não existia. A crise se aprofundou até a negativa formal da operação pelo Banco Central em setembro de 2025. Em novembro do mesmo ano, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, culminando na prisão de Daniel Vorcaro.
A defesa de Ibaneis Rocha, representada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay), informou que não se manifestará sobre declarações sem respaldo probatório. A defesa sustenta que os fatos reafirmam a posição do ex-governador de conceder autonomia de gestão à presidência do BRB, assegurando que ele não interferia nas decisões operacionais e administrativas do banco estatal. O empresário Leonardo Valverde não respondeu aos contatos da reportagem.







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