A Frente de Libertação de Azawad (FLA), um grupo separatista tuaregue do Mali, anunciou ter estabelecido contato com o “Africa Corps”, uma unidade militar russa, e expressou o desejo de iniciar conversações com a Turquia para encontrar uma resolução política para a crise no país africano. Mohamed Elmaouloud Ramadane, porta-voz da FLA, disse ao Middle East Eye que o grupo almeja a intervenção de Ancara devido à crescente influência turca no Mali, que a elevou a um ator fundamental na região.

Atualmente, a FLA está em uma ofensiva coordenada com o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), uma coalizão de grupos armados ligada à Al-Qaeda. Juntos, esses grupos têm conquistado cidades e bases militares, além de impor um bloqueio à capital, Bamaco, e serem responsáveis pela morte do ministro da Defesa, Sadio Camara, em abril. Embora atuem em conjunto, seus objetivos são distintos: o JNIM busca derrubar o governo central, enquanto a FLA luta pela criação de um Estado tuaregue autônomo no nordeste do Mali.

Mudanças nas Alianças Internacionais

O cenário político atual do Mali reflete uma significativa mudança nas alianças internacionais do governo de Assimi Goïta, que trocou as parcerias ocidentais por uma estreita colaboração com Moscou. A ofensiva liderada pela FLA e pelo JNIM em abril evidenciou as fragilidades da nova presença russa no norte do país, resultando na retirada dos membros do Africa Corps da estratégica cidade de Kidal antes que a FLA a capturasse.

Diante do conflito, Ramadane alertou que a região nordeste do Mali, onde os separatistas querem fundar o Estado de Azawad, não deveria se tornar um palco para uma guerra por procuração entre potências estrangeiras. O porta-voz afirmou que a FLA persistirá na busca por diálogo com a Turquia, mesmo ciente de que Ancara estreitou suas relações diplomáticas, econômicas e militares com Bamaco na última década.

Apelo à Turquia

Ramadane ressaltou as consequências letais desse alinhamento, alegando que “Observamos que a Turquia desenvolveu consideravelmente suas relações com a junta criminosa em Bamaco, particularmente na venda de drones”, e que essas aeronaves têm causado mortes de civis em Azawad. Contudo, ele fez uma distinção clara entre a atual relação bilateral turca com Bamaco e o papel pacificador que o país pode exercer em um acordo político. “Não pedimos à Turquia que rompa suas relações com a junta militar. Pedimos que ela observe a realidade do Mali em toda a sua complexidade e que não considere a questão de Azawad apenas pelo prisma das autoridades de Bamaco”, declarou Ramadane.

Ele assegurou que os apelos da FLA ao presidente turco Recep Tayyip Erdoğan não representam uma tentativa de buscar outro patrocinador estrangeiro. “Não pedimos à Turquia que tome partido militarmente ao lado da FLA. Pedimos, antes de tudo, que escute e compreenda”, concluiu.