O analista Ricardo Almeida manifestou preocupação com o acirramento da crise política e da tensão na Colômbia. Em recente entrevista, ele descreveu o cenário colombiano, atualmente presidido por Gustavo Petro, como uma transição marcada por contestações eleitorais, intensa mobilização popular e a possibilidade de perseguição judicial contra grupos progressistas. Almeida também destacou as potenciais consequências transfronteiriças da instabilidade no país.

As eleições colombianas culminaram na declaração do empresário Abelardo de la Espriella, fundador do movimento Defensores de la Patria, como novo presidente em 24 de junho. Ele obteve 49% dos votos, superando Iván Cepeda, do Pacto Histórico, que conquistou 48%. Durante sua análise, Almeida criticou a formação de alianças entre setores conservadores colombianos, o Judiciário, a imprensa empresarial e as forças de segurança, visando enfraquecer adversários políticos. Segundo o analista, esses grupos utilizam táticas de lawfare, mídia e força para alcançar seus objetivos, o que ele classificou como uma "crise institucional acontecendo".

Fronteiras e instabilidade regional

O comentarista também alertou para a possível intersecção de organizações armadas, redes de narcotráfico e interesses políticos nas áreas de fronteira, especialmente na região amazônica. Ele indicou que grupos mercenários ou milicianos podem atuar conforme as vantagens econômicas oferecidas por seus financiadores. A Amazônia Legal brasileira, que abrange mais de 5 milhões de quilômetros quadrados e nove estados, corresponde a quase 60% do território nacional, o que ressalta a importância da estabilidade na região.

Abelardo de la Espriella, cujo grupo foi declarado vencedor, tem o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Almeida avaliou que a postura de confronto adotada pelos vencedores da eleição contra Petro, Cepeda e organizações populares contribuiu significativamente para a instabilidade. Em julho, Petro proibiu a posse de Espriella em uma instalação militar, insistindo que a cerimônia deveria ocorrer perante o Congresso, conforme a Constituição. Esta decisão veio após Espriella ter acusado Petro de "destruir a Colômbia" e ter instruído o vice-eleito a interromper o processo de transição.

Mobilização popular e contexto latino-americano

Diante do cenário, setores ligados ao governo de Gustavo Petro e ao candidato derrotado Iván Cepeda passaram a defender a paz como bandeira de mobilização, adotando a "desobediência civil pacífica". A esquerda colombiana e os movimentos populares planejam manter a mobilização nas ruas, sem, no entanto, abandonar os mecanismos institucionais.

A eleição de Espriella na Colômbia é vista como parte de um avanço mais amplo da direita na América Latina. Diversos países da região, como Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia, Peru, El Salvador e Costa Rica, têm líderes de perfil conservador. No contexto brasileiro, as eleições futuras também geram preocupação entre os progressistas, dada a importância econômica do Brasil na América Latina e sua crescente articulação com a China, os BRICS e o Sul Global. O presidente Donald Trump já havia manifestado interesse no pleito brasileiro, indicando que seria um "grande teste" para o "ressurgimento conservador" na América Latina, e levantando questões sobre possível interferência externa.