A crise do projeto progressista no Brasil tem sido frequentemente atribuída à falta de conexão com as bases populares, uma constatação que remonta a declarações feitas por Mano Brown em 2018. Contudo, uma análise mais aprofundada sugere que o diagnóstico estava incompleto, pois o problema não era o abandono das periferias, mas sim a incompreensão de uma outra parcela da população: a classe média emergente.
O "Pobre de Direita" e a Cegueira Estratégica
Pesquisas recentes, como o Datafolha de setembro, reiteram um padrão histórico: eleitores de baixa renda tendem a apoiar o Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, a faixa de renda intermediária, entre dois e cinco salários mínimos, se mostra um ponto crucial. Este grupo, frequentemente rotulado pejorativamente como "pobre de direita" por setores da esquerda, representa uma falha de análise e comunicação, pois são eleitores que já apoiavam o PT. Ao focar em quem já era seu e desviar energia militante, o partido ignorou a faixa onde realmente perdia terreno.
Essa classe média, que ascendeu economicamente durante os governos progressistas com acesso a crédito, educação e moradia, não se identificava unicamente pela renda. Ela buscava distinção social e, quando a diferença econômica diminuiu, o racismo e outros preconceitos se tornaram mecanismos baratos para essa diferenciação. O partido, que tinha a educação como ferramenta para desconstruir essas lógicas, falhou em investir nela, entregando-a a interesses privados e deixando de lado a formação política dessa nova camada social.
A Classe Média e o Fascismo como "Tábua de Sobrevivência"
Marcelo Neri a chamou de "nova classe média", e Marcio Pochmann questionou a denominação, mas o fato é que essa classe, embora com renda de trabalhador, ocupava um lugar social e psicológico diferente, com novas aspirações e medos. Endividada, sem patrimônio herdado e dependente do salário mensal, ela se viu espremida por um Estado que a taxava e uma sociedade que lhe cobrava distinção.
Quando a crise de 2015 se instalou, essa classe se sentiu desamparada, com dívidas, diplomas desvalorizados e a sensação de que não tinha para onde ir. Foi nesse vácuo que o discurso fascista encontrou terreno fértil. O fascismo não era uma ideologia para eles, mas uma "tábua de sobrevivência", oferecendo distinção social (o "cidadão de bem" contra o "vagabundo"), um inimigo para culpar e uma promessa de ordem, ainda que falsa. A pauta de costumes, muitas vezes vista como ruído, é na verdade o cerne desse processo, deslocando o apoio da classe média da esquerda e a transformando em massa de manobra.
A verdadeira base perdida pelo PT não foram os pobres, mas a classe média que ele ajudou a criar. A análise de que essa classe seria um "anti" ou um eleitor perdido por natureza estava equivocada; foi um eleitor perdido por abandono. A identidade do indivíduo contemporâneo é multifacetada, não se resumindo apenas à posição na produção. Essa complexidade, que inclui identificações como evangélico, torcedor, empreendedor, e a falta de uma narrativa política que abrace essa diversidade, deixou essa faixa crucial da população vulnerável a discursos que preenchem a necessidade de distinção e pertencimento.







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