247 – O desgaste exibido pelo USS Abraham Lincoln após 286 dias de missão ganhou destaque com a chegada do porta-aviões à Tailândia e alimentou críticas sobre a sobrecarga militar dos Estados Unidos. Em artigo publicado pelo jornal chinês Global Times, especialistas associaram a corrosão do navio à duração do destacamento, às limitações de manutenção da Marinha estadunidense e ao emprego intensivo da frota.
O porta-aviões atracou na quarta-feira no porto de Laem Chabang, em sua primeira escala desde novembro de 2025, segundo o Global Times. Fotografias divulgadas por veículos tailandeses mostraram extensas manchas de ferrugem no casco da embarcação, da proa à popa, depois de uma operação prolongada no Oriente Médio.
Com quase 335 metros de comprimento, o Abraham Lincoln passou a chamar a atenção nas redes sociais por sua aparência. Usuários disseram que o navio teria “mal escapado ileso do Golfo Pérsico” e questionaram, em tom irônico, se ele estaria a caminho de um ferro-velho.
O próprio capitão do porta-aviões reconheceu à imprensa o estado visual da embarcação, embora tenha usado uma comparação menos dramática.
“Parece um carro sujo em um estacionamento”, afirmou.
A escala deve permitir que a tripulação descanse antes do retorno ao porto de origem, em San Diego, na Califórnia. De acordo com a publicação chinesa, a longa permanência no mar também provocou preocupações com a saúde mental dos militares a bordo.
Especialista atribui ferrugem ao emprego prolongado
O especialista chinês em assuntos militares Zhang Junshe afirmou ao Global Times que a exposição constante à água salgada e a condições marítimas adversas acelera a corrosão. Para ele, porém, a dimensão do desgaste também está relacionada ao longo período de operação do navio.
Zhang citou como fatores adicionais os limites de capacidade dos estaleiros estadunidenses, as dificuldades de manutenção e a falta de trabalhadores qualificados. Esses problemas obrigariam a Marinha a manter determinadas embarcações em atividade por períodos superiores aos inicialmente planejados.
Segundo o especialista, a pressão aumentou diante da concentração de parte relevante da frota de porta-aviões no Oriente Médio, enquanto outras embarcações permanecem submetidas a ciclos prolongados de manutenção.
O texto do Global Times afirma que quatro dos 11 porta-aviões dos Estados Unidos foram mobilizados para a região em meio à guerra de Washington contra o Irã. Nesse cenário, o Abraham Lincoln teria permanecido em serviço para suprir as necessidades operacionais da Marinha.
Jornal chinês associa desgaste à estratégia de Washington
Em sua análise, o jornal chinês apresenta a ferrugem do Abraham Lincoln como símbolo de uma estrutura militar pressionada por compromissos simultâneos em diferentes regiões. A publicação sustenta que a presença mantida pelos Estados Unidos na Ásia-Pacífico, na Europa e no Oriente Médio cobra custos crescentes de navios, tripulações e sistemas logísticos.
Shen Yi, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Governança Global do Ciberespaço da Universidade de Fudan, afirmou que a condição visual do navio contrasta com a imagem de poder historicamente projetada pelos porta-aviões estadunidenses.
Segundo Shen, a ferrugem parece, à primeira vista, um problema de conservação, mas também exporia dificuldades relacionadas ao moral dos militares, à organização das operações e à infraestrutura que sustenta a capacidade naval dos Estados Unidos.
Para o pesquisador, o episódio representa uma “atrofia muscular” da hegemonia estadunidense e evidencia uma distância crescente entre as ambições globais do país e sua capacidade operacional.
Porta-aviões como instrumento de projeção de poder
Os porta-aviões ocupam papel central na estratégia militar de Washington porque permitem deslocar aeronaves, tropas e armamentos sem depender exclusivamente de bases terrestres. Essas embarcações também são empregadas como instrumentos de dissuasão e sinalização política em momentos de crise.
O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger definiu esses navios como “100 mil toneladas de diplomacia”, em referência à capacidade de influenciar decisões e demonstrar força mesmo sem participação direta em combates.
A presença de um porta-aviões perto de uma região de tensão costuma indicar que Washington pretende ampliar sua capacidade de reação e exercer pressão sobre governos e forças adversárias. O emprego frequente desses navios, entretanto, exige ciclos rigorosos de manutenção, disponibilidade de peças, infraestrutura portuária e revezamento adequado das tripulações.
No caso do Abraham Lincoln, a extensa corrosão externa não permite, por si só, concluir que os sistemas de combate ou a segurança da embarcação tenham sido comprometidos. O aspecto do casco, porém, ofereceu ao Global Times um elemento visual para questionar os custos da política militar estadunidense.
O jornal argumenta que o emprego excessivo das forças armadas pode transformar a projeção militar em fonte de desgaste, especialmente quando manutenção, logística e apoio às tripulações não acompanham a expansão das missões.
A ferrugem poderá ser removida durante os trabalhos de conservação e o casco poderá receber uma nova pintura. O período de 286 dias no mar, contudo, continuará como indicativo da intensidade das operações atribuídas ao porta-aviões e da pressão exercida sobre pessoal e equipamentos em destacamentos de longa duração.






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