247 – O jornalista Ricardo Noblat aponta um sinal de crescente preocupação na campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em coluna publicada neste domingo (20) no Metrópoles, sob o título “A luz está cada vez mais vermelha na campanha de Lula”, o jornalista relaciona o cenário eleitoral mais apertado a uma mudança ocorrida ao longo dos anos no círculo político mais próximo do presidente.

Noblat recupera a primeira eleição presidencial de Lula, em 2002, para mostrar como o petista sempre deixou clara sua autoridade sobre o grupo político que o cercava. Na noite da vitória, Lula lembrou aos integrantes de sua campanha que apenas ele e o vice José Alencar haviam recebido os votos dos eleitores, embora tenha assegurado que haveria espaço para todos no governo.

A primeira administração acabou reunindo nomes de grande peso político. José Dirceu assumiu a Casa Civil, Antonio Palocci foi para o Ministério da Fazenda e Gilberto Carvalho tornou-se chefe de gabinete da Presidência. Eram colaboradores próximos, mas, na leitura apresentada por Noblat, também personagens com densidade política própria e capacidade de participar das grandes decisões do governo.

Esse núcleo sofreu profundas transformações ao longo das décadas. Dirceu deixou o governo em meio à crise do Mensalão. Palocci também acabaria afastado do primeiro escalão. Da antiga guarda, poucos continuam com acesso próximo a Lula, entre eles Gilberto Carvalho e Paulo Okamotto, hoje atuando principalmente nos bastidores.

Noblat vê Lula mais cercado por auxiliares que o contrariam menos

A tese central da coluna é que a natureza do entorno presidencial mudou. Noblat considera que Lula está hoje cercado por um grupo mais “áulico”, no qual seriam menos frequentes as vozes dispostas a contrariar diretamente o presidente ou apresentar diagnósticos incômodos.

O jornalista também aborda a influência da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. Segundo sua análise, ela procura participar das discussões e influenciar determinadas decisões do presidente, mas isso não significa que suas posições sejam sempre acolhidas.

O diagnóstico apresentado por Noblat ganha relevância, em sua avaliação, porque Lula chega à reta final da eleição enfrentando uma disputa mais apertada do que aquela projetada meses atrás.

Pesquisas mostram disputa apertada

A preocupação apontada pelo colunista encontra respaldo no estreitamento registrado por diferentes pesquisas, embora os levantamentos apresentem resultados distintos e devam ser analisados dentro de suas respectivas margens de erro.

O Datafolha divulgado em 17 de setembro mostrou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno, uma diferença de três pontos percentuais. Em uma eventual disputa de segundo turno, Lula aparecia com 46% e Flávio com 44%, configurando empate técnico pela margem de erro de dois pontos.

Outros institutos apresentam cenários diferentes. A CNT/MDA divulgada em 15 de setembro, por exemplo, registrou Lula com 40,6% e Flávio com 30,4% no primeiro turno. Em um segundo turno, os percentuais eram de 47,3% e 40%, respectivamente.

Já o agregador Inteligov/EXAME mostra uma tendência de redução da distância média entre os dois principais candidatos no primeiro turno. A diferença, que era de 6,67 pontos em agosto, passou para 6,26 e chegou a 5,41 pontos na atualização divulgada em 18 de setembro.

As pesquisas, portanto, não apontam um quadro único sobre a dimensão da vantagem de Lula, mas mostram uma disputa competitiva a poucas semanas da votação.

Para Noblat, é nesse contexto que ganha importância a qualidade do aconselhamento recebido pelo presidente. A “luz vermelha” mencionada pelo colunista não se refere apenas aos números das pesquisas, mas também à sua avaliação de que Lula estaria politicamente mais isolado de colaboradores capazes de confrontá-lo com diagnósticos desfavoráveis.

A eleição presidencial terá seu primeiro turno em 4 de outubro. Até lá, a evolução das pesquisas mostrará se o estreitamento observado em parte dos levantamentos se mantém, se amplia ou é revertido.