A obsessão da família Bolsonaro contra a autonomia do Supremo Tribunal Federal não é recente nem novidade. O episódio em que o então deputado Eduardo Bolsonaro, em 2018, afirmou que bastariam “um cabo e soldado” para fechar o STF reflete mais que um desejo: uma diretriz que se estendeu desde o governo do pai até a derrota nas urnas para o presidente Lula. Não conseguiram derrubar a Corte com suas estratégias golpistas. Agora, porém, a ofensiva ganha nova feição, sob o verniz da legalidade e da disputa interna na própria Corte.

A decisão do ministro André Mendonça de tornar públicas informações de uma investigação que envolve diretamente um integrante do STF transforma o que deveria ser uma rigorosa apuração institucional em uma crise política dirigida. Não se trata apenas de expor Alexandre de Moraes.

Quando informações de uma investigação chegam ao público de maneira seletiva, à margem de uma decisão do Plenário do STF, o problema deixa de ser apenas o ministro envolvido e passa a atingir a credibilidade da própria Justiça. É assim que uma instituição pode ser corroída: não necessariamente fechando suas portas, mas destruindo sua autoridade, sua credibilidade e a confiança da sociedade em suas decisões.

O momento político torna esse cenário ainda mais crítico. Às vésperas de uma sucessão presidencial, assistimos a uma manobra que afeta diretamente a estabilidade democrática. O que está em jogo é a preservação de uma Justiça independente, diante de mais um episódio de uma ofensiva que, desde 2018, nunca deixou de buscar o enfraquecimento do Supremo e, com ele, do próprio Estado Democrático de Direito.

Vamos aos fatos: qual a urgência objetiva e qual o interesse estratégico de André Mendonça em isolar, dentro do extenso ecossistema do escândalo do Banco Master, unicamente os diálogos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes?

A devassa feita pela Polícia Federal nos dispositivos de Vorcaro e seu acervo de mensagens revela uma teia de conexões, uma extensa lista de pessoas que tiveram encontros com o banqueiro ou mantiveram algum tipo de relação ou vínculo financeiro envolvendo o Banco Master. Entre os nomes estão Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux; Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques; o próprio Alexandre de Moraes e integrantes de sua família; o ministro Dias Toffoli; o ex-ministro Ricardo Lewandowski; e até o próprio relator do caso Banco Master no STF, André Mendonça, que participou de uma reunião fechada com o banqueiro no início do ano passado.

Essa teia se consolidou no governo de Jair Bolsonaro. O Banco Master obteve sua licença de funcionamento em 2019, sob a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central, nomeado por Jair Bolsonaro. Foi naquele contexto que o arranjo institucional e as articulações financeiras ganharam musculatura. A proximidade entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, tratado em áudios como “meu irmãozão”, escancara esse DNA originário. O dono do Master operava uma rede transversal de compromissos que enredou 18 congressistas — entre eles Nikolas Ferreira, Aécio Neves, Ciro Nogueira e os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre — além de governadores, empresários e setores do mercado corporativo. Muitos desses parlamentares são alvos de apurações da PF.

Nem a poderosa Rede Globo ficou de fora dessa teia. A empresa dos Marinho teve o Banco Master como principal patrocinador de um evento realizado em 15 de maio de 2024, em Nova York. E quem apresentou o evento? O próprio Daniel Vorcaro.

Preso na Papuda, o dono do Master sinaliza a intenção de assinar um acordo de delação premiada. Resta saber o que ele traria de inédito, além do conteúdo de seus dispositivos, já apreendidos pela Polícia Federal. Talvez o caminho dos bilhões ainda não rastreado ou a real extensão de suas relações com a família Bolsonaro.

Nesse tabuleiro, permanece sem resposta de André Mendonça a provocação central: por que as evidências envolvendo Flávio Bolsonaro não têm o mesmo tratamento imediato e a mesma ostensividade conferida à exposição de Alexandre de Moraes? Como se pode pensar em isonomia quando o tempo do processo e a sanha de vazamento variam conforme o alvo?

Preservar a Justiça e a igualdade de tratamento para todos os citados nessas investigações não é um favor corporativo. É a única garantia de que o STF não será instrumentalizado para absolver uns e condenar outros ao sabor do calendário eleitoral. Isso diz respeito à própria democracia.