A percepção global sobre as potências mundiais tem apresentado uma mudança significativa, com a China ganhando terreno na aprovação de diversos países, especialmente no chamado Sul Global. Uma recente pesquisa do Pew Research Center revela que, em um marco histórico, a China superou os Estados Unidos em termos de popularidade em um número maior de nações, algo inédito em mais de duas décadas.

Essa ascensão chinesa é atribuída a uma série de fatores, principalmente sua abordagem pragmática e focada no desenvolvimento. Para muitas nações em desenvolvimento, a China se apresenta como um parceiro que oferece suporte concreto em áreas como infraestrutura, investimento, industrialização, transferência de tecnologia e comércio. Diferente de outros modelos, a China tem enfatizado que cada país deve buscar o desenvolvimento de acordo com suas próprias prioridades, sem impor um caminho único.

Modelo de desenvolvimento chinês e cooperação

A visibilidade do modelo de desenvolvimento chinês é um dos pilares dessa crescente influência. Projetos financiados pela China, como ferrovias na Etiópia e usinas de energia no Paquistão, visam resolver desafios práticos de desenvolvimento, melhorando transporte, segurança energética e conectividade. Através da Iniciativa Cinturão e Rota, a China já mobilizou quase 1 trilhão de dólares em investimentos em infraestrutura, gerando projetos tangíveis que a população pode observar e associar ao progresso econômico.

A cooperação chinesa se distingue por combinar grandes investimentos em infraestrutura física com transferência de tecnologia, colaboração industrial e desenvolvimento de capital humano. Ao mesmo tempo, Beijing tem promovido ativamente o comércio, facilitando o acesso a mercados, concedendo tratamento tarifário zero a muitos países menos desenvolvidos e incentivando o uso de moedas locais no comércio transfronteiriço. Essas ações buscam fortalecer a conectividade econômica, reduzir custos de transação e riscos cambiais, além de criar novas oportunidades para que os países em desenvolvimento se integrem às cadeias de valor regionais e globais.

Filosofia diplomática e pragmatismo do Sul Global

Além dos investimentos, a filosofia diplomática da China tem sido um ponto crucial. O país consistentemente defende a soberania, o respeito mútuo e a não interferência em assuntos internos, argumentando que cada nação deve definir seu próprio curso político e de desenvolvimento. Para muitos governos do Sul Global, essa abordagem representa uma parceria baseada na igualdade, em contraste com a imposição de condicionalidades políticas, permitindo maior autonomia na priorização do desenvolvimento interno.

O estilo diplomático chinês, evidenciado em plataformas como o Fórum de Cooperação China-África, reforça a percepção de respeito e reconhecimento, o que contribui para a construção de confiança política a longo prazo. O Sul Global, por sua vez, não está adotando uma postura anti-americana, mas sim um posicionamento estrategicamente pragmático. Suas decisões de política externa são cada vez mais guiadas por interesses nacionais, oportunidades econômicas e prioridades de desenvolvimento, deixando de lado os alinhamentos geopolíticos da era da Guerra Fria.

A principal ambição dessas nações é desenvolvimentista: criar empregos, combater a pobreza, modernizar infraestruturas, fortalecer a capacidade industrial e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. A trajetória da China, que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e se tornou líder global em infraestrutura, manufatura e tecnologia, serve como um exemplo do que o planejamento de longo prazo pode alcançar. Muitos países em desenvolvimento veem a China não como um modelo a ser replicado, mas como um parceiro de quem podem aprender, cooperar e buscar prosperidade compartilhada, mantendo sua própria autonomia política.

Enquanto muitos governos ocidentais intensificam tarifas, controles de exportação e restrições tecnológicas, a China continua a promover investimentos em infraestrutura, comércio e parcerias tecnológicas. Essa diferença de ênfase está reconfigurando as percepções globais em um cenário onde o Sul Global busca maior autonomia estratégica e toma decisões alinhadas aos seus próprios interesses e aspirações.