A economia cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o trimestre anterior. Houve uma desaceleração importante em relação à alta de 1,1% do primeiro trimestre, embora o resultado tenha vindo um pouco melhor do que parte do mercado esperava, com projeções mais próximas de 0,3% ou 0,4%.
Quando abrimos o número, porém, aparece uma característica muito clara: o consumo das famílias caiu 0,4% no trimestre, enquanto os setores ligados a commodities, especialmente agropecuária e indústria extrativa, tiveram desempenho forte. É uma fotografia bastante conhecida da economia brasileira, quase uma versão clássica da chamada doença holandesa: os setores primários avançam enquanto segmentos mais sensíveis aos juros, ao crédito e à demanda doméstica perdem força.
Pela ótica da despesa, o consumo do governo cresceu 0,4%. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede essencialmente o investimento, trouxe uma notícia positiva ao avançar 1,2%, mas também desacelerou bastante em relação aos 3,4% do primeiro trimestre. As exportações caíram 0,8%, enquanto as importações cresceram 1,8%. Ou seja, consumo fraco, investimento perdendo velocidade e setor externo contribuindo negativamente para o crescimento.
Na ótica da produção, a agropecuária cresceu 2,8% no trimestre, sendo um dos grandes destaques. A indústria extrativa também apresentou forte expansão. O problema é que o valor adicionado e, principalmente, a capacidade de geração de salários elevados nesses setores são menores do que em atividades industriais e de serviços sofisticados. É sempre útil lembrar que, nos Estados Unidos, por exemplo, a agropecuária representa algo em torno de 1% do PIB, apesar de o país ser uma potência agrícola mundial. O desenvolvimento não consiste simplesmente em produzir mais commodities, mas em construir cadeias produtivas complexas a partir delas.
E aparecem sinais claros de fraqueza justamente nos setores mais sensíveis aos juros. A indústria de transformação caiu 0,4% no trimestre, assim como a construção civil, que recuou 0,4%. O consumo das famílias também está em retração. São três áreas fortemente dependentes de crédito, financiamento e condições monetárias. Com juros muito elevados, não surpreende que sejam justamente esses os segmentos que começam a perder força.
Na comparação com o segundo trimestre do ano passado, a indústria como um todo ainda apresenta crescimento de 1,5%, mas esse número é bastante enganoso se olhado isoladamente. A indústria extrativa avançou 12%, puxada principalmente por petróleo e também pela mineração. Já a indústria de transformação recuou 0,9%. Ou seja, novamente temos um crescimento industrial concentrado na extração de recursos naturais, e não na manufatura.
A agropecuária, por sua vez, cresceu 6,8% em relação ao segundo trimestre de 2025. Há números muito fortes em algumas culturas, como café, com alta de 15,1%, e soja, com crescimento de 5,3%, além do desempenho positivo da pecuária. Tudo isso ajuda o PIB e evidentemente é positivo. Mas são setores com capacidade relativamente limitada de puxar toda a economia, especialmente quando comparados a uma indústria de transformação diversificada ou a serviços sofisticados e escaláveis.
Portanto, a fotografia do PIB é bastante clara. O crescimento de 0,5% é melhor do que parecia possível diante do aperto monetário, mas o raio-X do número é mais preocupante. O consumo das famílias está caindo, o investimento desacelerou, a construção e a indústria de transformação recuaram, enquanto o crescimento fica cada vez mais concentrado em agropecuária, petróleo e mineração.
É a boa e velha cara da economia brasileira e, de forma mais ampla, de muitas economias latino-americanas: um boom de commodities convivendo com uma estrutura produtiva doméstica enfraquecida. Commodities são importantes e geram divisas, renda e arrecadação. Mas, sozinhas, têm pouco poder de empuxo sobre o restante da economia. Sem recuperação do investimento, da indústria de transformação, da construção e do consumo, esse padrão de crescimento dificilmente nos levará muito longe.






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