247 – Um estudo conduzido sob a liderança do médico e pesquisador brasileiro Leonardo Riella, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, alcançou um feito histórico na medicina mundial: um paciente em estágio terminal de doença renal sobreviveu por mais de nove meses — exatamente 271 dias — com um rim de porco geneticamente modificado, sem necessitar de sessões de diálise. O resultado representa a maior sobrevida já registrada em um procedimento de xenotransplante (transplante de órgãos entre espécies diferentes) e coloca a ciência mais próxima de resolver o problema cronico da escassez de doadores humanos, informa o G1.

Antes de passar pelo procedimento inovador, o norte-americano Tim Andrews, de 66 anos, enfrentava um quadro grave de insuficiência renal que o deixou extremamente debilitado. Durante um ano e meio sob tratamento diurético e diálise, o paciente perdeu a mobilidade e passou a se locomover em cadeira de rodas, convivendo com episódios frequentes de náuseas e prostração.

Candidato ao procedimento experimental, Andrews recebeu o órgão suíno em janeiro de 2025. Pouco tempo após a cirurgia, ele apresentou uma recuperação expressiva, retomando atividades cotidianas antes impossíveis, como acampar e carregar peso, sem a limitação das máquinas de diálise. “Antes da cirurgia, me disseram que eu passaria o resto da vida fazendo diálise. Eu ficava doente o tempo todo, dormia muito, vomitava. Eu mal conseguia andar. Com o rim de porco, me senti ótimo. Assim que saí da mesa de cirurgia, eu estava sapateando. Literalmente”, declarou o paciente.

Em um ensaio anterior realizado pela equipe de Riella, em 2024, outro paciente submetido ao xenotransplante sobreviveu por 52 dias, falecendo em decorrência de complicações cardíacas não relacionadas ao órgão transplantado. Até então, nenhuma experiência científica havia ultrapassado a marca de dois meses de funcionamento contínuo de um rim animal em um organismo humano.

O rim de porco funcionou perfeitamente no corpo de Andrews por 271 dias, sendo capaz de filtrar o sangue, regular a água e manter os níveis de minerais de forma idêntica à de um órgão humano. Contudo, o órgão precisou ser retirado após o paciente contrair uma infecção bacteriana. O tratamento da infecção exigiu a redução das doses de medicamentos imunossupressores — fármacos indispensáveis para evitar a rejeição. Com a defesa do organismo reativada, o sistema imunológico passou a atacar o tecido animal, demandando a remoção cirúrgica. Oitenta e dois dias após a retirada do rim suíno, Andrews passou por um transplante com um rim humano convencional e segue saudável, sem sinais de rejeição.

Engenharia genética e a superação de barreiras imunológicas

O sucesso prolongado do transplante foi viabilizado por meio de edições genéticas avançadas no animal doador, desenvolvidas ao longo de cinco anos de pesquisas e aprovadas pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês).

O processo envolveu três modificações centrais no DNA do porco para adequar o órgão ao corpo humano:

  • Eliminação da rejeição imediata: Os cientistas desativaram os genes responsáveis pela produção de certas moléculas de açúcar na superfície das células suínas. Essas moléculas eram identificadas instantaneamente pelo sistema imunológico humano, desencadeando uma rejeição hiperaguda.
  • Inativação de vírus endógenos: Fragmentos de DNA viral presentes naturalmente no genoma dos porcos, que poderiam se reativar e infectar o paciente humano, foram completamente neutralizados em laboratório.
  • Inserção de genes humanos: Foram introduzidos sete genes humanos no código genético do animal doador. Essa alteração fez com que o órgão passasse a produzir proteínas semelhantes às humanas, melhorando o encaixe biológico e fazendo com que o sistema imunológico reconhecesse o tecido como menos estranho.

Impacto global e avanços da pesquisa no Brasil

A escassez de doadores é um gargalo global. No Brasil, o transplante de rim é um dos mais frequentes devido à possibilidade de aproveitamento de dois órgãos de um único doador falecido, além do doador vivo. Mesmo assim, dados do Ministério da Saúde apontam que mais de 45 mil pessoas aguardam atualmente por um rim na fila de espera no país.

Para especialistas, o xenotransplante surge como a alternativa mais viável a curto e médio prazo contra esse cenário, superando em cronograma o desenvolvimento de órgãos totalmente artificiais, estimados para daqui a pelo menos duas décadas. Leonardo Riella prevê que, em um horizonte de cinco anos, o xenotransplante possa se consolidar como uma ponte temporária para pacientes que aguardam órgãos humanos, com o objetivo de retirá-los da diálise. A longo prazo, a meta da comunidade científica é aperfeiçoar o manejo dos imunossupressores para que os órgãos suínos possam substituir definitivamente os transplantes humanos.

O médico especialista em transplante Rafael Pinheiro ressalta que essas pesquisas trazem uma nova perspectiva para a medicina, embora pontue que exista um intervalo de tempo entre a validação tecnológica e a aplicação em larga escala no sistema de saúde.

O Brasil também integra a vanguarda dessas pesquisas. Em abril, cientistas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram o nascimento do primeiro porco clonado do país, em Piracicaba (SP). A equipe da USP dominou a técnica de edição genética em 2022 — desativando três genes suínos de rejeição e inserindo sete genes humanos — e atingiu a etapa de clonagem para permitir a reprodução desses animais modificados em escala nacional.