247 – Páginas de influenciadores digitais com milhões de seguidores, atualmente sob investigação da Polícia Federal no escândalo envolvendo o Banco Master, atuaram diretamente na escalada digital do candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante), impulsionando sua visibilidade e ajudando a alavancá-lo nas pesquisas de intenção de voto, informa reportagem da revista Veja.

Na última pesquisa Nexus/BTG, Cury apresentou um salto expressivo ao passar de 2% para 11% das intenções de voto em apenas uma semana. O candidato aparece na terceira colocação na corrida presidencial, atrás do presidente Lula (PT), que lidera com 39%, e do senador Flávio Bolsonaro (PL), que registra 33%. Contudo, o crescimento repentino na preferência do eleitorado foi acompanhado por uma disparada atípica no número de seguidores e na taxa de engajamento em suas redes sociais, o que levantou fortes suspeitas entre as campanhas adversárias sobre o uso proibido de influenciadores pagos pela legislação eleitoral.

Salto atípico e indícios de manipulação

Os dados sobre o comportamento do perfil do candidato em agosto indicam fortes evidências de aquisição artificial de seguidores. Historicamente, Cury mantinha um padrão de crescimento estável e previsível, somando entre 1 mil e 3 mil novos seguidores diariamente. No entanto, o perfil registrou uma ruptura extraordinária ao ganhar abruptamente 2,4 milhões de novos seguidores em um intervalo de apenas 24 a 48 horas. A movimentação atípica incluiu picos de centenas de milhares de adesões registradas durante a madrugada, padrão totalmente incompatível com o histórico de sua conta.

A manobra digital ocorreu em fases articuladas. Diversos perfis focados em entretenimento, fofocas de celebridades, comportamento e cotidianos passaram a publicar sobre Augusto Cury de forma quase simultânea, mantendo uma frequência elevada e veiculando textos extremamente parecidos. Em um segundo momento, essas mesmas páginas criaram uma nova onda de publicações para repercutir o próprio crescimento do candidato no ambiente virtual.

Conexão com o escândalo do Banco Master

As investigações da Polícia Federal apontam que ao menos 40 perfis de influenciadores voltados a temas de entretenimento e vida cotidiana foram pagos para promover ataques coordenados e sincronizados contra o Banco Central. O objetivo da campanha de difamação, supostamente financiada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, era evitar a liquidação do Banco Master e viabilizar a venda da instituição financeira a potenciais compradores.

Ao menos quatro desses perfis investigados pela PF — identificados como Alfinetei, Alfinetada, Babadeira e Diferentona — também participaram ativamente da propaganda favorável a Augusto Cury. As páginas atuaram tanto na fase inicial, questionando os leitores sobre a possibilidade de Cury ser uma alternativa viável para a Presidência, quanto na fase posterior, celebrando sua ascensão na internet. Somadas, as quatro contas veicularam pelo menos 17 publicações sobre o presidenciável do Avante, gerando um volume expressivo de 3,7 milhões de interações.

Riscos legais e sanções eleitorais

A confirmação de irregularidades no gerenciamento de redes sociais e na manipulação de métricas pode trazer graves consequências jurídicas e comprometer a continuidade da candidatura de Augusto Cury. Conforme as normas vigentes na legislação eleitoral, a manipulação de dados de visibilidade ou a contratação paga de influenciadores para promoção eleitoral configura prática ilícita.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece com clareza que influenciadores digitais podem manifestar apoio espontâneo, realizar compartilhamentos orgânicos, utilizar hashtags e criar mobilizações voluntárias. Em contrapartida, é terminantemente vedado a esses agentes receber qualquer remuneração financeira ou vantagem econômica para veicular propaganda eleitoral ou promover candidaturas. Caso as irregularidades sejam comprovadas, as punições preveem a aplicação de multas, a remoção dos perfis das plataformas digitais e até mesmo a cassação do registro de candidatura, a depender da gravidade e do alcance dos fatos.

O outro lado

A reportagem da Veja informou que buscou contato com os administradores das páginas citadas e com o marqueteiro da campanha de Cury, Sérgio Lima, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.

Em declarações dadas na segunda-feira (31), durante entrevista ao programa Veja Em Foco, conduzido pela jornalista Marcela Rahal, Augusto Cury rebateu as acusações e classificou como “absurda” a hipótese levantada pelos adversários sobre a compra de seguidores.

“Acha que alguém com meu histórico, que sempre lidou com a verdade, que foi concursado como perito de psiquiatria judicial, que a vida inteira disse que quem não é transparente tem uma dívida impagável consigo mesmo, acha que vamos comprar seguidores?”, declarou Cury na ocasião. “Vou perder a minha essência por causa de uma jornada de uma eleição, já que eu tenho o que os políticos jamais sonharam em ter? Isso é um absurdo”.

O presidenciável defendeu que o salto em suas redes ocorreu de maneira inteiramente orgânica e espontânea, atribuindo o fenômeno a uma mobilização popular e a um “movimento incontrolável” de eleitores que teriam se identificado com sua mensagem e com sua proposta de “pacificação”, negando categoricamente a contratação de influenciadores pagos.