247 — A consolidação de uma nova arquitetura de poder internacional e a emergência definitiva do mundo multipolar estiveram no centro das discussões da edição desta quarta-feira do programa “O mundo como ele é”, veiculado ao vivo pela TV 247. Conduzido pelo jornalista e analista internacional José Reinaldo Carvalho ao lado da pesquisadora e especialista em relações internacionais Rose Martins, o debate aprofundou os desdobramentos estratégicos da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e seu protagonismo geopolítico frente às tentativas de tutela das potências ocidentais.

Para os analistas, o avanço estrutural e político da OCX — que realizou recentemente sua 26ª Cúpula em Bishkek, no Quirguistão — não representa apenas uma vitória diplomática regional na Eurásia, mas sim um passo irreversível na construção de alternativas concretas à ordem unipolar hegemônica liderada pelos Estados Unidos.

Das fronteiras euroasiáticas à governança global

Ao resgatar a trajetória histórica da organização, Rose Martins contextualizou que as origens do bloco remontam a 1996, com a fundação do chamado “Clube dos Cinco de Xangai” (Rússia, China, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão). A iniciativa nasceu com a missão imediata de desmilitarizar e pacificar fronteiras herdadas do pós-Guerra Fria e do desmantelamento da União Soviética.

Com a formalização definitiva da OCX em 2001 e o ingresso do Uzbequistão, o foco inicial concentrou-se no combate aos chamados “três males”: terrorismo, separatismo e extremismo religioso — temas prementes no início dos anos 2000 em regiões estratégicas como Xinjiang e a Chechênia.

No entanto, como destacaram os debatedores, a evolução da correlação de forças internacionais nas últimas duas décadas transformou profundamente o escopo da entidade. Hoje expandida com o ingresso de atores do peso de Índia, Irã e Belarus, a OCX ultrapassou a pauta estritamente militar e de segurança para se converter em um eixo de governança compartilhada, integração econômica, rotas logísticas e cooperação tecnológica, intimamente conectado ao avanço da Nova Rota da Seda chinesa.

O Sul Global em marcha e o legado dos Não Alinhados

José Reinaldo Carvalho enfatizou que o fortalecimento da OCX caminha em estreita sintonia com a iniciativa de governança global proposta por Pequim e com a expansão dos BRICS, convergindo para o anseio dos países do Sul Global por soberania real e reformas nas instituições multilaterais.

A mesa também traçou um paralelo histórico com o Movimento dos Países Não Alinhados, cuja criação completou mais um marco desde a histórica Conferência de Belgrado em 1961. Na avaliação dos analistas, os princípios de coexistência pacífica, independência e recusa à submissão a blocos imperialistas que inspiraram figuras históricas do século XX — como o líder vietnamita Ho Chi Minh — encontram renovada vitalidade na articulação contemporânea entre os gigantes do mundo em desenvolvimento.

A resistência de nações submetidas a sanções e cercos coercitivos por parte de Washington, a exemplo de Cuba e Venezuela, também foi denunciada como reflexo de uma ordem unipolar em declínio que insiste em instrumentos de guerra híbrida e pressão financeira. Diante desse cenário, a estruturação de alianças que operam em moedas locais, priorizam a diplomacia bilateral respeitosa e rejeitam imposições extraterritoriais consolida a OCX como um dos pilares mais decisivos do século XXI.