247 — A história contemporânea foi testemunha de uma virada tectônica no coração da Ásia Central. Enquanto a imprensa corporativa ocidental optou por um silêncio sintomático e quase absoluto, os líderes da Eurásia reuniram-se em Bishkek, no Quirguistão, para a 26ª Cúpula de Chefes de Estado da Organização de Cooperação de Xangai (OCX / SCO), marcando o 25º aniversário de sua fundação. O saldo político do evento foi analisado com profundidade e rigor pelo jornalista brasileiro Pepe Escobar, em entrevista concedida ao analista e acadêmico norueguês Glenn Diesen.

Para Escobar, a cúpula representou nada menos que a consolidação prática do mundo pós-ocidental: um momento de virada em que o centro de gravidade geoeconômico global deixa de orbitar Washington e Bruxelas para se enraizar definitivamente na massa continental eurasiática.

Do combate ao terrorismo à integração geoeconômica

Escobar iniciou a análise relembrando a gênese do bloco. Em junho de 2001 — três meses antes dos atentados do 11 de Setembro —, a OCX nascia modestamente em Xangai, congregando Rússia, China e quatro repúblicas centro-asiáticas em torno do combate aos “três males”: terrorismo, separatismo e extremismo religioso.

“Eles gostam de lembrar que essa organização gigantesca começou em um jardim em Xangai”, pontuou o jornalista, resgatando suas próprias passagens pela região nas vésperas da invasão norte-americana ao Afeganistão.

Vinte e cinco anos depois, a OCX sofreu uma profunda mutação ontológica. De um fórum estritamente voltado à segurança fronteiriça, transformou-se em um colosso geoeconômico. Com as sucessivas adesões de potências nucleares e regionais — Índia, Paquistão, Irã e Belarus, além de Turquia e Mongólia orbitando como parceiros ou observadores —, o bloco reúne atualmente a maior fatia da população mundial, reservas colossais de hidrocarbonetos e os principais polos industriais do planeta.

O golpe na hegemonia financeira: comércio em moedas locais e o Banco da OCX

O cerne das discussões em Bishkek, enfatizou Escobar, foi a interconectividade comercial e a soberania financeira. A dependência do sistema bancário ocidental e a vulnerabilidade à chantagem das sanções unilaterais impostas por Washington aceleraram os planos do Sul Global.

Entre os avanços cruciais, destacou-se a proposta apresentada pelo Irã e prontamente chancelada pela Rússia para a criação de um Banco de Desenvolvimento da OCX.

Segundo Escobar, a proposta visa superar as limitações enfrentadas pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS:

“O NDB tem estatutos historicamente atrelados ao dólar americano, o que gera restrições diante das sanções. É preciso virar o NDB de ponta-cabeça para que ele funcione como um banco de desenvolvimento pleno. Já o Banco de Desenvolvimento da OCX nasce desatrelado dessa camisa de força, permitindo que nações duramente sancionadas, como Irã e Rússia, financiem infraestrutura e comércio em suas próprias moedas nacionais.”

A declaração de Bishkek consolidou essa transição ao defender a liquidação de fluxos comerciais intra-bloco em moedas locais, esvaziando o papel do dólar como arma de coerção geopolítica.

A diplomacia dos corredores: Putin, Xi, Modi e a trilateral com Erdoğan

Escobar também chamou a atenção para o que chamou de “diplomacia pesada” que transcorreu à margem dos discursos protocolares.

Enquanto analistas ocidentais costumam apostar na paralisia da OCX devido a tensões bilaterais históricas — como as fricções na fronteira entre China e Índia —, as imagens e reuniões em Bishkek exibiram uma dinâmica de cooperação pragmática. Os registros fotográficos e as conversas informais entre Vladimir Putin, Xi Jinping e Narendra Modi demonstraram que, quando se trata de construir pontes comerciais no espaço eurasiático, as contradições secundárias cedem espaço aos interesses estruturais.

Outro ponto alto dos bastidores foi o encontro trilateral entre Vladimir Putin, Aleksandr Lukashenko e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan. Escobar destacou o papel de Ancara, membro da Otan, mas cada vez mais compelida pela gravidade econômica do Oriente: “Todos querem saber se Erdoğan foi apresentar uma proposta ou se Putin disse diretamente: ‘Queremos você aqui, mas você precisa decidir de que lado quer estar no futuro’.”

A Declaração de Bishkek: assertividade sem concessões

Apesar do tom comedido da diplomacia tradicional, Escobar definiu a Declaração de Bishkek como um documento de firmeza sem precedentes.

O texto final condenou com veemência o uso de “dois pesos e duas medidas” na política internacional, rejeitou sanções coercitivas unilaterais e repudiou categoricamente as agressões militares contra a integridade e soberania do Irã no Oriente Médio.

Sem precisar nomear Washington em cada linha, a mensagem da OCX foi inequívoca: a ordem internacional assentada na “ordem baseada em regras” do Ocidente — frequentemente utilizada como pretexto para intervenções ilegais — está esgotada, devendo ceder lugar ao cumprimento estrito do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, ponto também reforçado no plenário pela presença do Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

O “pesadelo de Mackinder” e o trem-bala da história

Na reta final da entrevista com Glenn Diesen, Escobar abordou os alicerces teóricos da geopolítica clássica para dimensionar o que está ocorrendo na Eurásia.

O analista relembrou a famosa tese de Halford Mackinder (1904), posteriormente refinada por Nicholas Spykman e pelo estrategista norte-americano Zbigniew Brzezinski: o “supremo pesadelo” das potências marítimas anglo-americanas sempre foi a aliança ou coordenação mútua entre as potências da massa continental eurasiática (o Heartland).

“O pesadelo supremo do Império Britânico no início do século XX, que fundou a ciência da geopolítica e depois foi herdado pelos Estados Unidos, era o surgimento de competidores no coração da Eurásia. Agora, eles têm o pior cenário possível: uma coalizão entre duas superpotências, Rússia e China, somada a potências regionais em ascensão como o Irã e gigantes como a Índia, todos operando no mesmo espaço.”

Para Pepe Escobar, os planejadores estratégicos em Washington e Londres encontram-se paralisados por um “bloqueio cultural e psicológico”, incapazes de aceitar o fim do privilégio unilateral e da era dos privilégios imperiais:

“O trem-bala já deixou a estação. Não é apenas a parceria estratégica Rússia-China; é toda a Eurásia subindo a bordo desse mesmo trem. Eles aprenderam as lições históricas dos últimos trinta anos. Para o Ocidente, acabou o almoço grátis.”