Entre julho e novembro de 1932 o partido nazista perdeu votos. Caiu de 37,3% para 33,1%, elegeu trinta e quatro deputados a menos, e havia gente em Berlim comemorando o fim da febre. Dois meses depois Hitler era chanceler. Não venceram uma eleição: venceram um arranjo, feito por conservadores que se julgavam espertos o bastante para usar o monstro e devolvê-lo à jaula depois do serviço. A urna, ali, foi detalhe administrativo. O que importou foi que as instituições alemãs já estavam ocas por dentro havia anos, roídas por decreto de emergência, por tribunal complacente e por uma imprensa que achou tudo aquilo muito interessante enquanto atingia os outros.

Guarde isto, porque é o mecanismo do que estamos vendo no Brasil.

Ao fascismo não interessa ganhar eleição. Interessa que a eleição deixe de significar coisa alguma. E é por isto que uma campanha presidencial brasileira em 2026 não é, em realidade, uma disputa entre dois projetos de país. É uma consulta sobre a permanência da própria democracia. Quem viveu 2019 a 2022 não precisa de aula sobre o que estava sendo tentado, nem sobre quem o tentava, e a paciência com o eufemismo já deveria ter acabado faz tempo.

Alexandre de Moraes atravessou aquilo no meio do caminho. Prendeu militares golpistas — e a frase, dita assim, deveria constar de todo livro didático dos próximos cem anos, porque nenhum ministro brasileiro tinha feito isto antes. Impediu que a eleição fosse roubada no atacado. Tentou, e ainda tenta, submeter as plataformas americanas ao direito brasileiro, o que no vocabulário do Vale do Silício é aproximadamente o mesmo que blasfêmia. E disse não a Trump numa hora em que quase todo mundo dizia sim de olhos baixos. Colecionou, com isto, um conjunto de inimigos que não é só grande para os padrões de um ministro do Supremo: é grande para os padrões de um Estado nacional inteiro.

Homem nenhum sai ileso de um currículo desses. E também não fica acima de investigação — nem deve. Suspeição contra juiz poderoso é higiene republicana, não conspiração.

Ocorre que investigar é uma coisa, e o relatório que vazou é outra.

Li o documento inteiro, as duzentas e dezoito páginas. A metodologia da Polícia Federal, é preciso dizer com todas as letras, é boa: cruzam quatro repositórios independentes do sistema do iPhone, mostram a sequência de abertura do bloco de notas, a captura de tela, o PDF residual que o iOS gera sozinho no mesmo segundo, a abertura do WhatsApp, o envio. Repetem o padrão em cinquenta e duas notas. Fazem até um controle de qualidade honesto, conferindo cinco mensagens de visualização única contra exatamente cinco registros de log. Não é trabalho porco. Quem chamar aquilo de “peça grosseira” não leu.

O problema não está no método. Está no que o método consegue tocar.

Porque toda essa engenharia estabelece, com segurança, para onde as mensagens foram: para o terminal 61 9266-4093. E estabelece que Daniel Vorcaro havia salvo aquele número, na agenda do próprio celular, como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Só isto. Mesmo.

Veja que existem, sim, outros fios ligando Vorcaro ao ministro nos autos: os metadados do contrato de honorários, as conversas de terceiros falando em “o ministro”, o almoço em Campos do Jordão, os contratos com o escritório de Viviane Barci. Nenhum deles, porém, liga o ministro àquelas notas. As notas — as que falam do Banco Central, as que são a razão de existir de todo o escândalo — pendem de um único fio, e esse fio é um rótulo de agenda telefônica, isto é, texto livre que qualquer pessoa digita sobre qualquer número. Dentro ou fora do celular apreendido. Eu posso salvar o meu açougueiro como “Papa Leão XIV”. Nenhum perito do mundo consegue extrair disso mais do que a informação de que eu digitei aquilo.

E aqui chegamos ao ponto que me tirou o sono.

Existe uma prova, uma só, capaz de fechar essa lacuna de forma definitiva e a prova que qualquer advogado faria pedir: o dado cadastral da linha junto à operadora. De quem é o 61 9266-4093. Não é perícia complexa, não depende de hash, de cadeia de custódia, de laudo do SETEC, de nada que se discuta em audiência por três dias. É um ofício. Uma página. Prazo de resposta em 7 dias.

Não está nos autos.

O aparelho foi apreendido em 18 de novembro de 2025. O relatório é de 27 de agosto de 2026. São nove meses. Nove meses para mandar um fax — perdão, um ofício eletrônico — perguntando a quem pertence um número de telefone, e a resposta não aparece nas duzentas e dezoito páginas que o país inteiro está lendo como se fossem prova.

Ora. Ou perguntaram e a resposta não serviu à narrativa, e então alguém precisa explicar por que ela ficou de fora. Ou não perguntaram, e aí a pergunta muda de endereço: como é que uma equipe de sete policiais federais, três agentes e quatro delegados (cujos CPF’s estão nos metadados dos documentos liberados por Mendonça), capaz de reconstruir a cronologia de um iPhone com precisão de segundo, deixa de fazer a única diligência que resolveria o caso? Não é competência que falta a essa gente. E não é à toa que a peça sai justamente sem o pedaço que poderia desmenti-la.

Sobra a linha do escritório de Viviane Barci. O pagamento existe, ela o reconhece, e a defesa do ministro é a de que responsabilidade de advogada é da advogada. Levada ao limite, a tese funciona — e funciona porque é verdadeira: a carreira de uma profissional não é apêndice do marido, e presumir o contrário é machismo travestido de rigor. O que a acusação quer é converter aquele dinheiro em pagamento ao ministro, com o contrato servindo de cano. Para isto seria necessário demonstrar que a prestação de serviços foi fingida, e demonstrar isto é fácil: mostrem os entregáveis. Pareceres, petições, horas, correspondência. Ou aparecem, e a tese morre; ou não aparecem, e o ministro tem um problema grave. Quanto à assinatura digital do arquivo apontando “Ministro Alexandre de Moraes” como último a modificar a minuta, qualquer estagiário de segundo ano derruba aquilo em trinta segundos: computador de casa, perfil do Office aberto, mulher que usa a máquina do marido sem trocar de usuário. Acontece em toda residência do Brasil que tem um computador só.

Então o que temos, ao fim, é um relatório tecnicamente competente, “probatoriamente” vazio no ponto em que precisaria ser cheio, e cuja lacuna central seria preenchida por um documento de uma lauda que ninguém foi buscar.

E este material, assim como está, teve o sigilo levantado pelo ministro relator em plena campanha.

André Mendonça terá lá suas razões, e não sou eu quem vai atribuir-lhe intenções que não posso provar. Registro apenas o que qualquer leitor de jornal consegue conferir sozinho: que existe nova denúncia de repasse (mais uma) do mesmo Vorcaro a Flávio Bolsonaro; que essa denúncia não mereceu, do mesmo relator, a mesma pressa; que o senador não decola nas pesquisas; e que a bomba caiu sobre o único juiz que os golpistas de 2022 não conseguiram contornar, exatamente no mês em que ela rende mais.

Coincidência é uma senhora muito ocupada no Brasil …

Eu não sei se o ministro Alexandre de Moraes recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro. Ninguém sabe, e é este o escândalo: depois de duzentas e dezoito páginas, de sete assinaturas digitais e de uma operação com nome de filme, continuamos sem saber, porque a diligência de um parágrafo não foi feita. O que eu sei é que já vi este filme, e que ele não termina com um ministro na cadeia.

Termina com a cadeira vazia.