Você deve ter lido: o Governo do Paraná revogou a licitação de R$ 581 milhões para expandir o programa Olho Vivo, aquele de videomonitoramento com inteligência artificial que a gente já comentou aqui. A decisão veio depois que o TCE-PR freou tudo em abril, apontando fragilidade na proteção de dados sensíveis (LGPD ignorada) e indícios de sobrepreço. Oficialmente, a justificativa foi técnica: cronograma comprometido, tecnologia evoluindo rápido demais, fim de mandato chegando. Mas vamos combinar — quando o tribunal aponta que você quer gastar meio bilhão sem cuidar direito da privacidade de quem vai ser filmado 24 horas por dia, cancelar é o mínimo.
O que ninguém está dizendo: revogar não significa desistir. Significa refazer o edital, ajustar o projeto, esperar a poeira baixar. E aí está o ponto: a discussão sobre vigilância em massa com IA no Paraná não acabou, só foi adiada. Até porque 20 mil câmeras espalhadas pelo estado, com reconhecimento facial e cruzamento de dados, não é melhoria incremental — é mudança de paradigma. E mudança de paradigma exige debate público, transparência e, principalmente, governança de dados que funcione de verdade. Coisa que o edital original claramente não tinha.
Quando a segurança digital falha onde menos esperamos
Ainda no território dos dados sensíveis, o Hospital Sírio-Libanês confirmou um ataque cibernético que pode ter vazado informações de pessoas ligadas a projetos sociais. O grupo Seven Deadly Sins (7DS) assumiu a autoria e publicou amostras em blog próprio — mais de 1.600 arquivos em CSV, segundo eles, extraídos de um servidor da plataforma Mangará Digital, sistema de telessaúde de código aberto mantido pelo hospital para iniciativas do SUS.
O comunicado do Sírio foi correto: avisou ANPD e Polícia Federal, deixou claro que a base geral de pacientes não foi afetada, explicou que o problema estava num sistema interno de relatórios. Mas veja bem: estamos falando de uma das instituições de saúde mais bem equipadas do país. Se até lá a infraestrutura de segurança cibernética deixa brecha para invasão e extração de dados, imagina o resto. A lição é dura: tecnologia sem camadas robustas de proteção — firewall, criptografia, monitoramento contínuo, gestão de acessos — vira porta aberta. E quando o alvo é saúde pública, a porta dá para a intimidade de quem mais precisa de proteção.
WhatsApp finalmente aprende com o Telegram (e outras brevidades)
Numa semana pesada, uma notícia leve: o WhatsApp começou a testar agendamento de mensagens na versão beta para Android. Funciona como você imagina: escreve, segura o botão de enviar, escolhe data e hora, pronto. Dá para programar texto, foto, vídeo e link — um arquivo por vez. A novidade é que a mensagem sai mesmo com o app fechado, diferente de gambiarras que a gente já tentou.
O detalhe irônico? O Telegram tem isso desde 2019. Sete anos de diferença para uma função que qualquer profissional de comunicação ou quem lida com fusos horários pedia de joelhos. Mas enfim, chegou. Ainda está em beta, sem previsão de liberação geral, mas é sinal de que o WhatsApp finalmente entendeu que copiar recurso útil da concorrência não é vergonha — é obrigação.
E já que estamos no terreno das utilidades: você sabe consultar se sua empresa está depositando o FGTS direitinho? O app da Caixa mostra tudo: basta comparar o extrato com seus contracheques mês a mês. Se der diferença, tem como cobrar. Parece básico, mas muita gente descobre anos depois que foi lesada — e aí o prejuízo já virou bola de neve.
A semana deixa uma lição clara: tecnologia resolve problema quando vem acompanhada de responsabilidade, transparência e respeito a quem usa. Quando vem só com hype, edital malfeito e servidor desprotegido, vira mais um. Fica a pergunta: quantas licitações e quantos ataques ainda vamos precisar ver antes de tratar governança digital como prioridade, e não como burocracia?
A coluna Modo Avião sai todo domingo na seção Tecnologia & IA do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.







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