247 – O El Niño amplia o risco de chuva extrema no Sul e seca no Nordeste, enquanto calor e queimadas preocupam Centro-Oeste, Sudeste e Amazônia nos próximos meses. A atualização do Painel El Niño 2026-2027 projeta um cenário de forte contraste climático durante a primavera, com excesso de precipitação no Sul e déficit de chuva em áreas do centro-norte do país.
O novo boletim foi elaborado por órgãos federais responsáveis pelo monitoramento meteorológico, climático, hidrológico e de riscos. Entre as instituições envolvidas estão Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e Censipam.
O documento atualiza as projeções para o trimestre entre setembro e novembro, período que abrange grande parte da primavera. A análise considera possíveis impactos sobre chuvas, recursos hídricos, agricultura, incêndios e ocorrência de eventos climáticos extremos.
No Sul, a principal preocupação está na possibilidade de episódios de chuva intensa e acumulados elevados em intervalos curtos. O histórico de anos marcados por El Niño forte ou muito forte indica maior propensão a cheias, inundações, enxurradas, alagamentos e movimentos de massa.
O Rio Grande do Sul apresenta o sinal mais consistente de aumento dos extremos de precipitação. Em Santa Catarina, as áreas de maior atenção incluem Oeste, Meio-Oeste, Planalto, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e Sul do estado.
No Paraná, o comportamento previsto é mais irregular, mas o sudoeste e o centro-sul, além da Região Metropolitana de Curitiba, da Serra do Mar e do litoral, aparecem entre os pontos que exigem maior acompanhamento.
O risco é ampliado pelo fato de a Região Sul apresentar pouco déficit hídrico acumulado. Em julho, apenas 4% da área da região estava classificada em condição de seca fraca, concentrada principalmente no leste paranaense. Com solos mais úmidos e sistemas hídricos já carregados, novos volumes elevados de chuva podem aumentar a vulnerabilidade a eventos extremos.
Nordeste enfrenta avanço da seca
No Nordeste, a previsão é oposta. O boletim aponta tendência de chuvas abaixo da média combinadas com temperaturas elevadas, cenário que pode aprofundar a deficiência hídrica e aumentar a pressão sobre atividades dependentes da precipitação.
Os indicadores já mostram deterioração. Em junho, 40% do território nordestino estava sob seca moderada. Em julho, essa proporção avançou para 45%.
A situação também preocupa do ponto de vista do abastecimento. Dos 358 açudes acompanhados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, 71 estavam com menos de 20% da capacidade. Desses, 47 apresentavam armazenamento inferior a 10%.
A persistência do período seco pode pressionar a segurança hídrica especialmente nas localidades em que os reservatórios ainda não recuperaram volumes considerados adequados.
Seca também preocupa no Sudeste
O Sudeste aparece como outro ponto de atenção. Em julho, 89% da região estava submetida a algum nível de seca, e 2% do território já havia atingido a categoria de seca grave.
Segundo o boletim, as temperaturas devem continuar acima da média sob influência do El Niño. O calor aumenta a evaporação e acelera a perda de umidade do solo.
Caso a estação chuvosa comece mais tarde ou produza volumes inferiores aos esperados, a deficiência hídrica poderá se intensificar entre a primavera e o verão.
Centro-Oeste tem risco elevado de queimadas
No Centro-Oeste, a combinação de pouca chuva e temperaturas elevadas poderá ampliar a deficiência hídrica em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.
O cenário pode dificultar o início das culturas de verão, embora o tempo mais seco favoreça a conclusão de algumas colheitas. O principal risco ambiental, entretanto, está no aumento da possibilidade de incêndios.
O boletim aponta 514 municípios em nível de Alerta Alto para fogo e outros 706 classificados em Alerta. As áreas abrangidas somam aproximadamente 5,85 milhões de quilômetros quadrados.
Os maiores níveis de risco concentram-se principalmente em Mato Grosso, no sul do Amazonas, no Pará e em áreas próximas.
A seca também vem avançando sobre territórios ambientalmente sensíveis. O número de Unidades de Conservação em condição de seca severa passou de sete para 14, enquanto a quantidade de Áreas Indígenas na mesma situação subiu de três para 17.
O agravamento foi identificado principalmente em partes do Pará, Tocantins, Mato Grosso e Amazonas.
Amazônia ainda não repete secas extremas de 2023 e 2024
Apesar dos sinais de alerta, o boletim indica que a Amazônia ainda não apresenta uma condição hidrológica excepcionalmente baixa e generalizada como a registrada em 2023 e 2024.
Os níveis dos rios variam de forma significativa entre as diferentes áreas da região, com pontos específicos enfrentando condições mais críticas.
Para setembro, outubro e novembro, a previsão aponta chuvas abaixo da média em partes do Amapá, Roraima, Pará, Maranhão, Amazonas, Acre, norte de Mato Grosso, além do norte e centro de Tocantins e de Rondônia.
As temperaturas devem ficar acima da média em toda a Amazônia Legal e também no Pantanal.
Essa combinação pode atrasar o início da estação chuvosa no centro e no sul da Amazônia e prolongar as características típicas da estação seca em algumas áreas.
Primavera pode ter até cinco ondas de calor
O Painel El Niño também aponta aumento da frequência esperada de ondas de calor durante a primavera.
Entre setembro e novembro, a média histórica é de duas a três ondas de calor. Em anos sob influência do El Niño, a projeção sobe para aproximadamente três a cinco episódios.
O documento ressalta que a ocorrência desses eventos também vem aumentando em anos sem El Niño, em um movimento associado ao aquecimento global. Ainda assim, estatisticamente, o fenômeno tende a elevar a frequência das ondas de calor durante o período analisado.






Comentários
Seja o primeiro a comentar.