Mulheres da Amazônia têm se organizado em associações e cooperativas para impulsionar iniciativas de proteção de seus territórios e combate às mudanças climáticas. Essas organizações atuam em comunidades tradicionais, desenvolvendo soluções e compartilhando experiências que visam frear a perda de biodiversidade, gerar renda e aumentar a segurança alimentar. As ações são uma resposta aos impactos observados no dia a dia, como a alteração no ciclo de amadurecimento de frutos importantes para a subsistência local.

A agricultora Daniela Araújo, da comunidade de Pirocaba, em Abaetetuba, no Pará, relata que o açaí, que tradicionalmente tem um tempo certo para ser colhido, agora sofre com secas prolongadas e chuvas fora de época. Essa mudança climática faz com que as colheitas precisem ser antecipadas para evitar a perda dos frutos. Essa diminuição da oferta de alimentos da floresta é uma realidade em muitas comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas e da agricultura familiar na região.

Iniciativas e Fortalecimento

Diante desse cenário, a organização social FASE Amazônia lançou, em 2023, um projeto em 14 municípios paraenses. O objetivo é fortalecer a soberania alimentar e a autonomia das mulheres, com foco na justiça climática e na garantia dos direitos territoriais. Sara Pereira, coordenadora da FASE Amazônia, explica que foram desenvolvidas diversas frentes, incluindo a implantação de sistemas agroflorestais, a formação de lideranças femininas e a defesa de políticas públicas para a titulação de terras.

Além disso, o projeto trabalhou na viabilização do escoamento da produção por meio de mercados institucionais e feiras locais, e no fortalecimento da governança comunitária, com a criação de protocolos de consulta prévia livre informada e a elaboração de planos de gestão comunitária. Essas ações levaram as mulheres a se reunirem em coletivos, desenvolvendo soluções conjuntas para a produção de alimentos saudáveis e a proteção dos territórios, florestas e águas.

Monitoramento e Autonomia

Para o acompanhamento da produção e das mudanças climáticas, foi implementada a caderneta agroecológica. Essa ferramenta permite que as mulheres registrem seu ciclo produtivo, identificando dificuldades e os fatores que as causaram. Com a diversificação da produção através do sistema agroflorestal, as comunidades passaram a cultivar não apenas frutíferas da floresta, mas também culturas de curto prazo, garantindo uma alimentação mais variada.

O sistema agroflorestal também contribui para a regeneração do solo e mantém o território produtivo o ano todo, o que, segundo Daniela, aumenta a autonomia das comunidades. Em outros municípios, como Ingarapé-Miri, a organização em associações, como a Associação de Apoio às Comunidades Amazônicas (APACC), presidida por Benedita Carvalho Gonçalves, tem permitido o beneficiamento e a comercialização dos produtos em feiras e para a merenda escolar, como a transformação da mandioca em farinha, biju e outros derivados. Sara Pereira destaca que a participação nessas iniciativas tem elevado a autoestima das mulheres, que se reconhecem como provedoras de suas famílias.