247 – Durante a Feira Internacional de Maputo (FACIM), em Moçambique, o Brasil atuou como país convidado de honra. A participação nacional foi marcada pela presença de empresários levados pela ApexBrasil para prospectar negócios no mercado africano. Nesse cenário, Ana Euler, diretora-executiva de Inovação Social e Transferência de Tecnologia da Embrapa e diretora de Transferência de Tecnologia da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), concedeu entrevista detalhando as estratégias de cooperação bilateral.
O foco dos diálogos na feira foi o alinhamento com o governo moçambicano para o aumento da produção de alimentos. O Brasil assume o desafio de exportar desenvolvimento tecnológico por meio de parcerias, uma estratégia viabilizada pelas semelhanças climáticas e de solo entre as nações.
“Temos desafios em comum”, afirmou Ana Euler, comparando a estrutura agrária dos dois países. Enquanto no Brasil 70% das cerca de 5 milhões de propriedades rurais são de agricultura familiar, em Moçambique esse índice chega a 93%. O produtor moçambicano, responsável pela alimentação interna, contudo, enfrenta “baixa produtividade, com déficit de acesso a crédito, com déficit de acesso a tecnologias”.
Para estruturar o setor em Moçambique, a experiência brasileira poderá servir como base, adaptada às singularidades locais. Euler explicou que o Brasil desenvolveu políticas efetivas — envolvendo crédito, mercado e compras públicas — responsáveis por tirar 30 milhões de brasileiros do Mapa da Fome. Atualmente, o obstáculo no Brasil não é a ausência de políticas, “e sim levar a comunicação, o conhecimento das políticas e a capacidade de acesso a essas políticas públicas”.
Transferência de tecnologia
Para viabilizar a cooperação técnica, a Embrapa reestruturou sua governança com a criação da Diretoria de Inovação Social e Transferência de Tecnologia, que se encontra em fase final de estruturação. Euler destacou o resgate dessa função histórica. “A transferência de tecnologia tinha sumido do organograma da diretoria da Embrapa”, substituída em gestões anteriores por um foco em negócios para garantir sustentabilidade financeira.
A diretora esclareceu que a missão da Embrapa “não é assistência técnica, e sim ter uma transferência de tecnologia capaz de fazer parcerias muito próximas com as entidades de assistência técnica, que são aquelas que têm de capilarizar o acesso à tecnologia”.
A reformulação também responde ao cenário macroeconômico e fiscal brasileiro. Euler apontou que o setor privado “se acomodou” no uso gratuito de tecnologia pública. A Embrapa busca agora um modelo duplo para o financiamento da pesquisa: “Como ofertaremos tecnologia e inovação tanto para os pequenos, com política pública e acesso gratuito, quanto para os privados, através de licenciamento, royalties e retroalimentação da pesquisa e da inovação?”, questionou.
Projetos como o Inova Social, em parceria com o BNDES, mostram a necessidade de “mudar o nosso mindset da forma de fazer pesquisa”, rejeitando soluções generalistas, sobretudo na transição agroecológica nos territórios brasileiros.
Escala e modernização em Moçambique
Sobre as perspectivas para a nação africana, a diretora relatou que as autoridades locais buscam dar escala à produção para transformar Moçambique em um país exportador. “Eles querem muito atrair o setor privado, inclusive do próprio Brasil, e chamar os empresários brasileiros para cá”, afirmou, ressaltando a necessidade de captar divisas para o fundo soberano moçambicano.
Paralelamente, há a exigência de modernizar a agricultura familiar, responsável pela alimentação do país. Atualmente, a maior parte dos alimentos consumidos em Moçambique é importada da África do Sul, apesar de o território moçambicano dispor de 37 milhões de hectares agricultáveis, além de recursos minerais, biodiversidade e ausência de problemas hídricos.
O objetivo final é criar um equilíbrio sustentável entre a agricultura de escala e a familiar, formando um “mosaico de agriculturas” inspirado no modelo brasileiro.
“Como empresa pública, trabalhamos muito claramente e agora, inclusive, cada vez mais especializados com esses dois públicos, entendendo que eles não competem, que eles têm que ser complementares”, concluiu a diretora.






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