247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (18), durante um comício em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, que pretende acabar com as plataformas de apostas no país caso a decisão dependa de sua vontade pessoal. Lula também rejeitou o argumento de que uma eventual proibição das bets colocaria em risco o futebol brasileiro.
Ao abordar os impactos das apostas sobre a população, Lula elevou o tom contra as empresas do setor. “Se depender da minha vontade pessoal, eu vou acabar com as bets neste país”, afirmou.
“Se depender de mim, vou acabar com as bets”
O presidente classificou as casas de apostas como “a coisa mais horrorosa” que já viu e citou o caso de uma mulher que, segundo ele, sofreu consequências graves relacionadas ao jogo.
“É a coisa mais horrorosa que eu já vi na vida”, disse Lula. “Eu não tinha noção. Eu conversei com uma menina que tentou se matar três vezes.”
Não foi a primeira vez que o presidente relacionou as apostas online a situações de endividamento, dependência e sofrimento psicológico. Na quarta-feira (16), em entrevista ao Desce a Letra Show, Lula já havia manifestado sua “disposição pessoal” de acabar com as bets, embora tenha ressaltado que, como presidente, precisaria ouvir outros setores e avaliar as consequências de uma eventual medida.
Naquela ocasião, Lula classificou as bets como uma “desgraça” para a população pobre e relatou outros episódios envolvendo pessoas que teriam enfrentado dívidas e problemas graves em decorrência das apostas.
Lula rebate argumento sobre impacto no futebol
No discurso desta sexta-feira, Lula também entrou diretamente na discussão sobre a dependência financeira do futebol brasileiro em relação às empresas de apostas.
O presidente lembrou que clubes brasileiros conquistaram títulos mundiais muito antes da expansão das bets no país e contestou a tese de que a retirada dessas empresas provocaria uma crise incontornável no esporte.
“Então esse negócio de que se acabar com as bets vai acabar com o futebol é uma balela”, declarou.
A afirmação ocorre em meio a uma mobilização de clubes e entidades de comunicação contra possíveis restrições à publicidade e ao patrocínio das casas de apostas. As empresas do setor se tornaram importantes patrocinadoras de equipes brasileiras, sobretudo dos clubes da Série A.
Clubes e emissoras defendem mercado regulamentado
Na quinta-feira (17), clubes de futebol de São Paulo e do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão se posicionaram em defesa da atuação e da publicidade das empresas de apostas autorizadas pelo Ministério da Fazenda.
Os defensores do atual modelo argumentam que o mercado regulamentado permite maior fiscalização das empresas e ajuda a diferenciar operadores legalizados de plataformas clandestinas. Também sustentam que restrições severas à publicidade e aos patrocínios poderiam provocar perdas expressivas para clubes e outros segmentos ligados ao esporte.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) estima que um eventual corte nos investimentos do setor possa alcançar R$ 9 bilhões até 2029, quando terminam as atuais licenças de operação.
O debate envolve, portanto, duas dimensões distintas. Lula e grupos críticos às apostas destacam problemas relacionados ao vício, ao endividamento e aos impactos sociais. Representantes do mercado regulamentado e entidades ligadas ao futebol ressaltam, por sua vez, receitas tributárias, empregos, patrocínios e a necessidade de combater prioritariamente as plataformas clandestinas.
Debate sobre bets ganha força no governo
A ofensiva de Lula contra as bets não começou no comício desta sexta-feira. O presidente já havia manifestado anteriormente preocupação com os efeitos das apostas sobre a renda das famílias e defendido a possibilidade de medidas mais duras.
Ao tratar do assunto em abril, Lula reconheceu que uma eventual proibição não dependeria exclusivamente da Presidência e envolveria discussão com o Congresso Nacional. As normas que disciplinam o funcionamento das apostas no país são federais, o que torna necessária a participação do Legislativo em mudanças estruturais no modelo.
O tema voltou a ganhar força nas últimas semanas. O governo discute possíveis restrições ao setor, enquanto clubes, emissoras e representantes das empresas regulamentadas intensificaram a defesa da manutenção da atividade legal.
O impacto econômico das apostas também entrou no centro da discussão. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), estimou que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025 devido à redução do consumo. O levantamento também apontou possíveis efeitos sobre o endividamento das famílias.
Representantes do setor contestam a associação direta entre bets regulamentadas e endividamento. A ANJL sustenta que as plataformas autorizadas não aceitam cartão de crédito e argumenta que a regulamentação trouxe mecanismos de controle, arrecadação e fiscalização que não existiam anteriormente.






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