247 – O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que o governo federal estuda comprar carteiras de dívidas para quitar débitos de famílias de menor renda. Em entrevista ao Boa Noite 247, da TV 247, nesta sexta-feira (18), ele revelou que a proposta prevê um leilão no qual instituições interessadas ofereceriam descontos para vender créditos em bloco ao poder público. O desenho, porém, ainda é embrionário e não tem custo, público beneficiário ou modalidades de dívida definidos. Moretti ocupa o Ministério do Planejamento e Orçamento desde 2026.
“O que nós começamos a discutir é uma possibilidade do governo fazer um leilão, comprar carteiras de dívidas, especialmente das famílias mais vulneráveis, de renda menor, e liquidar essas dívidas”, afirmou.
A ideia discutida pela equipe econômica é usar a escala de compra do governo para obter descontos maiores sobre créditos que hoje estão nas carteiras dos credores. Em vez de negociar cada débito isoladamente, o poder público compraria conjuntos de dívidas por um valor inferior ao saldo nominal e daria quitação às famílias contempladas.
Moretti explicou que a intenção é “fazer um leilão para que as instituições que tenham interesse em vender essas carteiras apresentem suas propostas, deem um deságio no valor dessas carteiras”.
O ministro não informou se a iniciativa incluiria apenas bancos e outras instituições financeiras ou se poderia alcançar também dívidas com empresas de varejo e outros credores. A faixa de renda dos beneficiários e os tipos de débito que poderiam entrar no mecanismo também continuam em estudo.
Segundo Moretti, a equipe ainda trabalha na definição dos parâmetros técnicos antes de levar um desenho fechado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro afirmou que o governo ainda não tem “maturidade para apresentar a proposta”. Lula disputa a eleição presidencial de 2026 pelo PT, conforme registro validado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Uma das diferenças apontadas durante a entrevista seria justamente a atuação do governo como comprador das carteiras. Questionado se o modelo representaria o uso do poder de compra estatal para negociar dívidas “no atacado”, Moretti confirmou: “Isso mesmo”.
Na avaliação do ministro, a redução do estoque de débitos teria efeito não apenas sobre a situação financeira das famílias, mas também sobre o consumo.
“Isso significa mais renda disponível, mais capacidade de consumo por parte dessas famílias”, afirmou.
O que muda em relação ao Desenrola
O governo já adotou leilões como instrumento para estimular descontos na primeira versão do Desenrola Brasil, lançada em 2023. Naquele modelo, os credores disputavam espaço oferecendo abatimentos sobre os contratos e os débitos selecionados ficavam aptos à renegociação com garantia do Fundo de Garantia de Operações (FGO). O governo, portanto, não comprava diretamente as carteiras para extinguir as dívidas, como prevê a possibilidade agora descrita por Moretti.
Segundo balanço do Ministério da Fazenda, o Desenrola original ajudou mais de 15 milhões de pessoas a deixar a inadimplência e movimentou R$ 53,2 bilhões em renegociações. Na plataforma destinada à população de menor renda, os descontos médios chegaram a 90% para pagamentos à vista e ficaram em torno de 85% nos parcelamentos.
O Executivo lançou uma nova versão do programa em maio deste ano. O Novo Desenrola Brasil atende pessoas com renda de até cinco salários mínimos e abrange, entre outras modalidades, dívidas de cartão de crédito rotativo, cheque especial e crédito pessoal sem consignação. O programa oferece descontos que podem chegar a 90%, juros de até 1,99% ao mês e parcelamento de até 48 meses, além da possibilidade de utilização de recursos do FGTS nas condições estabelecidas pelas normas.
O mecanismo revelado por Moretti iria além da renegociação subsidiada ou garantida. Pelo desenho apresentado na entrevista, a própria União avaliaria adquirir carteiras com deságio para liquidar os débitos selecionados. Não há, até o momento, anúncio formal do programa nem definição de fonte orçamentária, montante de recursos ou número potencial de beneficiários.
Dívidas comprometem parcela elevada da renda
Os dados mais recentes do Banco Central ajudam a dimensionar a preocupação mencionada pelo ministro. O indicador de endividamento das famílias ficou em 49,8% em junho de 2026, alta de 1 ponto percentual em 12 meses. O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou a 28,9%, avanço de 1,7 ponto percentual no mesmo período.
A inadimplência também aumentou. Em julho, 5,8% da carteira de crédito destinada às famílias estava com atrasos superiores a 90 dias. Considerando somente as operações com recursos livres para pessoas físicas, o índice alcançou 7,8%. A taxa média de juros das novas operações de crédito livre para pessoas físicas estava em 60% ao ano.
Moretti afirmou que programas de renegociação podem atenuar a situação das famílias já endividadas, mas avaliou que uma solução estrutural também depende de juros menores.
“Nós precisamos baixar a Selic, precisamos de uma redução da taxa de juros”, declarou.
O Banco Central reduziu na quarta-feira (16) a meta da Selic de 14% para 13,75% ao ano, dando continuidade ao ciclo de cortes iniciado em 2026. A taxa ainda permanece em patamar elevado na comparação com os últimos anos.
Apostas também entram na preocupação do governo
Moretti relacionou a discussão sobre endividamento aos efeitos das apostas on-line sobre parte das famílias brasileiras. Segundo o ministro, pessoas com comportamento problemático relacionado ao jogo podem recorrer a empréstimos ou ampliar dívidas no cartão de crédito.
“Quem está jogando, quem está viciado em jogo, acaba tomando dívida, acaba se enrolando no cartão de crédito”, afirmou.
O governo já adotou medidas que conectam diretamente os programas de recuperação financeira às restrições às apostas. Desde 2026, beneficiários do Novo Desenrola Brasil estão entre os grupos impedidos de participar de apostas de quota fixa em plataformas autorizadas. O sistema também restringe o acesso de beneficiários do Bolsa Família, do BPC e de outros programas abrangidos pelas regras. Em agosto, o Ministério da Fazenda informou que o mecanismo de bloqueio já havia impedido o acesso de mais de 3 milhões de pessoas desde sua implantação.
O Ministério da Saúde também lançou, em julho, uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas on-line, alertando que o uso problemático pode afetar a situação financeira, a saúde mental e as relações familiares e sociais dos apostadores.
Moretti disse que Lula acompanha o problema e que novas medidas sobre apostas poderão ser avaliadas pelo governo. Sobre a compra das carteiras de dívidas, porém, o ministro reiterou que a equipe ainda precisa definir o alcance, os critérios e a engenharia financeira do programa antes de apresentar uma proposta final.






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