247 – Uma mineradora australiana financiada por uma das principais apoiadoras empresariais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende transformar uma região do Vale do Jiquiriçá, na Bahia, em um dos maiores polos de exploração de terras raras do Brasil. O projeto alcança áreas ambientalmente protegidas, envolve minerais radioativos e enfrenta resistência de famílias que relatam pressão para vender suas propriedades.
Segundo reportagem dos jornalistas Gabriela Moncau e Pedro Stropasola, do Intercept Brasil, a Brazilian Rare Earths (BRE), responsável pelo projeto Monte Alto, tem entre seus acionistas a Hancock Prospecting, da bilionária australiana Gina Rinehart, conhecida por seu apoio a Trump e à agenda política MAGA.
A iniciativa está entre os projetos mais avançados de terras raras em desenvolvimento no país. No Brasil, a BRE atua por meio da subsidiária Borborema Recursos Minerais e concentra suas atividades principalmente na Bahia, estado que reúne 1.204 processos minerários ativos relacionados a terras raras, cerca de 31% do total nacional, segundo levantamento do Intercept com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Mais da metade desses registros está no Vale do Jiquiriçá, região que abriga aproximadamente 20 mil famílias ligadas à agricultura familiar, conforme dados da Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.
“Vivenciamos uma nova corrida, o chamado neoextrativismo. Isso perpetua a situação do Brasil como um país dependente da exploração de matérias-primas e da mercantilização da natureza. A Bahia está no centro desse foco”, afirmou Lucas Zenha Antonino, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e pesquisador do grupo Geografar, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Empresa concentra centenas de requerimentos na Bahia
A BRE possui 230 requerimentos envolvendo terras raras no estado, o equivalente a 19,1% dos processos ativos desse tipo na Bahia. Entre eles, Monte Alto é o empreendimento mais próximo de avançar para a exploração.
Segundo a empresa, 167,6 mil hectares estão atualmente sob seu controle na região, com pesquisas minerárias autorizadas pela ANM.
O potencial mineral chama a atenção pela concentração dos elementos encontrados. De acordo com estudo divulgado pela própria BRE em agosto, o teor médio de Óxidos de Terras Raras Totais (TREO) em Monte Alto chega a 11,3%. Na Serra Verde, em Minaçu (GO), única operação brasileira de terras raras atualmente em produção comercial, esse índice é de aproximadamente 0,12%.
O projeto ainda não recebeu autorização definitiva para a exploração comercial. A ANM, porém, concedeu em março uma Guia de Utilização que permite, mediante as demais licenças necessárias, uma lavra experimental de até 2 mil toneladas de minério por ano durante três anos.
A Borborema informou ao Intercept que a extração ainda não começou e depende das “autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis”.
O licenciamento ambiental da operação comercial deverá passar pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Segundo o órgão, o estudo e o relatório de impacto ambiental da empresa ainda são aguardados.
O projeto também tramita na Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) devido à presença de materiais radioativos. A autarquia informou que o processo está em fase inicial de avaliação regulatória.
Comunidade relata pressão para vender propriedades
O avanço do empreendimento provoca tensão na comunidade rural de Monte Alto, majoritariamente ligada à agricultura familiar.
Moradores relataram ao Intercept mudanças na rotina provocadas pela circulação de caminhões, máquinas de sondagem e obras de alargamento das estradas. Também afirmaram que passaram a receber propostas da empresa para a aquisição das propriedades.
Segundo os relatos reunidos pela reportagem, cerca de 120 famílias vivem no local e pelo menos 17 teriam vendido seus imóveis à companhia. A mineradora, procurada pelo Intercept, não confirmou esse número.
Uma moradora identificada pelo pseudônimo Berenice afirmou que o processo de negociação vem provocando “medo, pressão psicológica, até mesmo o adoecimento”.
“Enquanto eles avançam, sentimos o peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias famílias”, relatou.
Em abril, 104 das 117 famílias então contabilizadas na comunidade assinaram um manifesto entregue à Borborema. O documento apontou “insegurança”, “desinformação” e “desgaste social” na relação entre os moradores e a empresa.
O texto também mencionou “pressão excessiva” durante negociações para compra de imóveis, “abordagens que geram constrangimento” e “falta de clareza e transparência nas informações prestadas”.
Segundo Berenice, a empresa começou realizando levantamentos de solo antes de intensificar as negociações.
“Em alguns lugares, pediam autorização para fazer coleta de solo para análise. Depois, chegaram as sondas, que faziam furos maiores. E aí foram tentando adquirir propriedades por preços muito abaixo, não deixando claro para as pessoas o que tinha no solo e o porquê da pressa”, afirmou.
Ela disse ainda que moradores passaram a sentir que suas propriedades estavam sendo cercadas pelo avanço das aquisições.
“E aí começaram a criar um cerco”, declarou.
Mineradora nega constrangimento nas negociações
A Borborema rejeitou as acusações de pressão sobre proprietários e afirmou ao Intercept que “não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados, prestadores de serviços ou representantes”.
A companhia acrescentou estar “disponível para apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e adotar “as providências cabíveis”.
Segundo a empresa, as negociações são feitas individualmente e “com base em avaliações técnicas”.
A Synergia Socioambiental, consultoria contratada pela Borborema para auxiliar nas negociações fundiárias, não respondeu às perguntas enviadas pelo Intercept até a publicação da reportagem.
Entre os agricultores que resistem à venda está um morador identificado como Edgar. Ele possui aproximadamente 15 hectares destinados ao cultivo de cacau e outras culturas.
Segundo seu relato, a proposta recebida foi de R$ 50 mil pela terra. Com a inclusão da casa e de estruturas usadas na produção de cacau, o valor total teria chegado a R$ 800 mil. Ele não aceitou a oferta.
Outro agricultor, identificado como Firmino, resumiu o temor de deixar o lugar onde vive há décadas.
“A gente tem medo, porque a gente já nasceu, foi criado aqui. Para sair, acostumar lá fora… Aqui é sossegado, é bom demais”, afirmou.
Área do projeto alcança unidade de conservação
Além do conflito fundiário, o projeto chama a atenção pela sobreposição com áreas protegidas.
Parte da área do processo de Monte Alto coincide com a Área de Proteção Ambiental Caminhos Ecológicos da Boa Esperança. Segundo o levantamento publicado pelo Intercept, cerca de 18,4% da APA, ou aproximadamente 42,2 mil hectares, está alcançada por processos relacionados ao empreendimento.
A mineração não é automaticamente proibida em Áreas de Proteção Ambiental, desde que receba as autorizações previstas em lei.
A situação muda, porém, na Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, unidade de proteção integral com aproximadamente 2,4 mil hectares localizada dentro da APA. Nesse tipo de unidade, a mineração não é permitida.
Ainda assim, a investigação encontrou quatro processos minerários ativos da Borborema sobrepostos à estação ecológica. Dois deles, relacionados a terras raras, já chegaram à etapa de direito de requerer lavra.
A ANM informou que, caso seja apresentado um pedido efetivo de lavra, serão analisados os “procedimentos de retirada de interferências com as áreas em que eventualmente a mineração não é permitida”.
A agência ressaltou que qualquer extração depende de licença ambiental.
A Borborema, por sua vez, disse que esses processos integram outro empreendimento, o projeto Amargosa/Alurion, atualmente em avaliação para eventual cessão, e ressaltou que ser titular de um processo minerário não equivale a possuir autorização para explorar a área.
Relatório do Ibama aponta impacto sobre nascente
Os riscos ambientais já foram objeto de análise federal.
Em maio de 2025, uma inspeção do Ibama concluiu, segundo documento obtido pelo Intercept, que “a cava prevista impactará nascente e curso d’água, além de atingir remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete comunidades”.
A APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança também abriga espécies consideradas ameaçadas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema), entre elas tamanduá-mirim, bicho-preguiça, quati e mico-estrela.
Criada em 2003, a unidade ainda não possui plano de manejo. Questionado pela reportagem, o governo baiano informou que a elaboração do documento “ainda não foi iniciada”.
A pesquisadora Valdirene Rocha, professora do Instituto Federal Baiano e integrante do Geografar, da UFBA, afirma que a expansão minerária no estado ocorre em ritmo acelerado.
“A gente tem observado, a partir dos dados oficiais, a expansão da fronteira mineral para a Bahia em um ritmo muito acelerado”, disse.
Segundo ela, as autorizações de pesquisa mineral cresceram mais de 46% entre 2021 e 2025.
“Atualmente, são 22.875 processos com autorização de pesquisa mineral e outros 1.075 requerimentos de pesquisa. Esses números continuam em crescente e estão associados ao discurso da transição energética”, afirmou.
Presença de urânio amplia preocupação
Outro ponto central revelado pela investigação é a presença de urânio associado aos depósitos minerais de Monte Alto.
Moradores ouvidos pelo Intercept disseram não terem recebido informações detalhadas sobre o elemento radioativo durante reuniões realizadas pela empresa.
A Borborema sustenta que “a presença natural de urânio e tório associados à mineralização” faz parte das informações abordadas em suas atividades de relacionamento comunitário.
A empresa também afirmou que “Monte Alto não é uma mina de urânio e não produzirá o concentrado de urânio, nem realizará enriquecimento ou processamento químico de urânio no local”.
Em uma reunião realizada em 24 de julho, a ata registra que foram apresentadas “informações sobre a formação geológica dos minerais identificados na região”, mas não menciona expressamente o urânio, de acordo com a reportagem.
Em entrevistas voltadas ao mercado internacional, porém, o CEO da BRE, Bernardo da Veiga, destacou o tema.
Segundo ele, Monte Alto possui “níveis muito elevados de urânio”. “Nós sempre soubemos que não seria um problema. O Brasil é um país nuclear e está confortável com o urânio”, afirmou.
A BRE prevê o aproveitamento do urânio como coproduto. Testes realizados pela companhia indicam a possibilidade de obtenção de concentrado conhecido como yellowcake, utilizado em etapas posteriores da cadeia do combustível nuclear.
A Borborema informou que esse eventual processamento não seria realizado em Monte Alto.
“A potencial recuperação de urânio na forma de concentrado de urânio está prevista apenas para uma futura planta industrial centralizada em Camaçari”, afirmou a empresa.
“Essa planta dependerá de estudos adicionais, do licenciamento, das autorizações da ANSN [Autoridade Nacional de Segurança Nuclear], dos acordos necessários com a INB [Indústrias Nucleares do Brasil] e da decisão final de investimento”, acrescentou.
A ANSN disse ao Intercept que mantém um processo da Borborema em “fase inicial de avaliação regulatória”, mas que “não emitiu autorização para produção de concentrado de urânio no empreendimento Monte Alto”.
Já as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) confirmaram a assinatura de um protocolo de intenções com a BRE para “avaliar e desenvolver conjuntamente o potencial de aproveitamento do urânio como coproduto dos projetos de terras raras da empresa”.
Gina Rinehart aparece entre investidores da BRE
A dimensão internacional do empreendimento passa pela bilionária Gina Rinehart, proprietária da Hancock Prospecting e uma das figuras empresariais associadas politicamente a Trump.
Rinehart participou das comemorações pela vitória eleitoral de Trump em 2024 e tornou-se conhecida por defender posições próximas da agenda MAGA. Donald Trump exerce atualmente a Presidência dos Estados Unidos.
Por meio da Hancock, Rinehart adquiriu participação na Brazilian Rare Earths. Segundo a reportagem, a fatia era de 6,4% em fevereiro de 2025, embora bases de dados do mercado financeiro apontem percentual diferente atualmente.
Em entrevista ao canal canadense Investor News, Bernardo da Veiga destacou o papel dos investidores estrangeiros no crescimento da companhia.
“Trouxemos investidores muito importantes, investidores de peso, por assim dizer. Eles nos financiaram para adquirir toda aquela província”, afirmou.
Ao mencionar Rinehart, acrescentou que “somos muito honrados por ter alguém tão importante e, além disso, tão qualificado em nosso quadro de acionistas”.
Veiga também afirmou que a companhia estabeleceu “um monopólio total dessa província de terras raras” e apresentou aos investidores como vantagens do Brasil o “baixo custo de energia e mão de obra barata”.
A Hancock Prospecting disse ao Intercept que, por ser “uma pequena acionista” da BRE, perguntas sobre Monte Alto deveriam ser encaminhadas à própria mineradora, responsável pela administração e execução do projeto.
Refinaria em Camaçari entra no plano estratégico
O empreendimento não pretende se limitar à retirada do minério.
O plano da BRE prevê que o material de Monte Alto seja inicialmente britado no Vale do Jiquiriçá e depois transportado por cerca de 260 quilômetros até o Complexo Industrial de Camaçari, perto do Porto de Aratu.
A empresa também desenvolve uma planta-piloto na Bahia e pretende futuramente instalar uma refinaria de terras raras em escala industrial.
A unidade projetada poderá produzir óxido de neodímio-praseodímio, concentrados de terras raras pesadas e, caso receba as autorizações necessárias, concentrado de urânio.
Esses minerais estão entre os insumos considerados estratégicos para setores como veículos elétricos, eletrônica avançada, inteligência artificial, energia e equipamentos militares.
O destino inicialmente previsto para parte da produção é a França, mas documentos da BRE também citam Europa, Japão e Estados Unidos como mercados possíveis.
Em 2025, a companhia firmou acordo com a francesa Carester, empresa com participação da estadunidense USA Rare Earth, para o fornecimento de concentrados de terras raras pesadas ao longo da próxima década.
A Carester também deverá prestar serviços de engenharia para a eventual refinaria da BRE em Camaçari.
A disputa por esses minerais ganhou importância estratégica diante da concentração global da cadeia de terras raras na China. O Brasil possui algumas das maiores reservas conhecidas do planeta e vem recebendo crescente atenção de governos e investidores estrangeiros.
O tema também passou a ocupar posição de maior destaque na política industrial brasileira. Em setembro de 2026, o governo federal sancionou uma política nacional específica para minerais críticos e estratégicos, incluindo instrumentos destinados a estimular processamento e agregação de valor dentro do país.






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