O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parte neste domingo (20) para Nova York, onde participará da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na terça-feira (22), o chefe de Estado brasileiro proferirá o primeiro discurso entre os líderes mundiais, seguindo a tradição diplomática. A defesa da democracia, da soberania nacional e do princípio da não interferência nos assuntos internos dos países deve ser um ponto central de sua fala, em um período de atrito entre Brasília e Washington, e a poucas semanas das eleições presidenciais brasileiras.

O presidente tem reiterado publicamente sua intenção de defender o direito dos brasileiros de decidirem seu futuro sem interferência estrangeira. Essa postura ganha relevância diante das pressões exercidas pelo governo de Donald Trump, que, em negociações comerciais de 2025, teria apresentado exigências ao Brasil que incluíam a participação irrestrita de "dissidentes políticos" nas eleições de 2026. O governo brasileiro refutou a proposta, afirmando não reconhecer a existência de presos ou dissidentes políticos no país. Com isso, Lula pretende sinalizar ao presidente norte-americano que as eleições brasileiras são uma questão exclusiva do povo brasileiro, e a soberania será apresentada como defesa da autonomia das instituições nacionais.

Ações de figuras políticas em Washington

A tensão se intensificou nos últimos dias com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do comentarista Paulo Figueiredo em Washington. Eles alegaram ter se reunido com integrantes do governo Trump e defendido novas sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Eduardo Bolsonaro passou a se autodenominar “dissidente político” e fez acusações, sem provas, sobre uma suposta tentativa do STF de impedir uma vitória de seu irmão, Flávio Bolsonaro, na eleição presidencial.

Outra pressão veio do deputado republicano Chris Smith, que enviou uma carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, solicitando maior monitoramento da situação brasileira e das eleições, mencionando o STF, o ministro Alexandre de Moraes e o caso Banco Master. A OEA, em agosto, já havia firmado um acordo com o governo brasileiro para enviar uma Missão de Observação Eleitoral às eleições gerais de 4 de outubro.

Multilateralismo e reforma da ONU

Além da soberania e da democracia, Lula deve retomar pautas tradicionais da política externa brasileira, como o fortalecimento do multilateralismo, a promoção da paz e a reforma das instituições de governança global. A reforma das Nações Unidas está entre os temas da participação brasileira, segundo o Itamaraty. Lula defende há anos uma mudança na composição e no funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, argumentando que sua estrutura pós-Segunda Guerra Mundial não representa adequadamente a distribuição de poder atual. Em seu discurso na Assembleia Geral de 2024, ele destacou que a reforma deveria abranger a composição, os métodos de trabalho e o direito de veto do Conselho de Segurança, além de ampliar a representação de regiões como América Latina e África. O respeito ao direito internacional, a solução pacífica de conflitos e a proteção das populações civis também farão parte da mensagem brasileira.

Na terça-feira, antes de discursar, Lula terá um encontro com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e também estão previstas reuniões bilaterais. O tema oficial da 81ª Assembleia Geral é “Restaurando a confiança, administrando transformações: uma ONU que produza resultados para todos”. Para o Brasil, o evento ocorre em um momento em que soberania, democracia e não interferência externa se tornaram pautas centrais no debate político nacional.