247 – O governo de Donald Trump tentou utilizar as negociações abertas pelo tarifaço contra o Brasil para obter condições especiais de acesso aos minerais críticos brasileiros e reduzir a presença chinesa nesse setor estratégico. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou as condições apresentadas por Washington, considerando inaceitável uma abertura ampla do mercado brasileiro sem contrapartidas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo documentos obtidos e autenticados pelo jornal, uma proposta apresentada pelos Estados Unidos em outubro de 2025 previa que o Brasil informasse previamente aos norte-americanos sobre transferências e vendas de ativos relacionados a minerais críticos, categoria que inclui recursos fundamentais para setores tecnológicos e para a transição energética.

O objetivo dos Estados Unidos era garantir que empresas norte-americanas tivessem conhecimento e oportunidade de participar dos processos envolvendo esses ativos e, ao mesmo tempo, limitar a expansão de investimentos de países classificados por Washington como “entidades estrangeiras de preocupação”.

A principal preocupação norte-americana era a China, embora Rússia, Irã e Coreia do Norte também aparecessem entre os países considerados sensíveis pelos Estados Unidos.

EUA queriam aviso prévio sobre ativos minerais

Pelos termos apresentados, o Brasil deveria ampliar a transparência sobre eventuais transferências de ativos minerais estratégicos antes mesmo da aprovação das operações.

Isso permitiria que empresas norte-americanas tivessem oportunidade de disputar ativos e participar de licitações relacionadas ao setor.

A proposta estava diretamente relacionada à crescente competição entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos e terras raras, matérias-primas indispensáveis à produção de semicondutores, baterias, veículos elétricos, equipamentos militares, turbinas eólicas e diversas tecnologias avançadas.

A China ocupa posição dominante em diferentes etapas dessas cadeias, sobretudo no processamento e refino de terras raras, situação que Washington procura reduzir por meio da diversificação de seus fornecedores.

Nesse cenário, as grandes reservas brasileiras passaram a adquirir importância estratégica crescente.

Governo Lula rejeitou condições

Segundo o Estado de S. Paulo, o governo brasileiro avaliou que a proposta norte-americana pretendia promover uma ampla abertura do mercado nacional aos interesses dos Estados Unidos sem oferecer contrapartidas consideradas suficientes pelo Brasil.

As condições foram rejeitadas.

A posição adotada pelo governo Lula foi a de preservar a autonomia brasileira sobre seus recursos naturais e evitar compromissos que pudessem restringir a capacidade do país de decidir quais parceiros participariam da exploração e industrialização de seus minerais.

A postura está em sintonia com a estratégia posteriormente explicitada pelo governo para os minerais críticos: atrair investimentos estrangeiros, mas buscar manter no Brasil etapas de beneficiamento, refino, industrialização e desenvolvimento tecnológico.

Lula tem reiterado que os minerais brasileiros pertencem ao povo brasileiro e que o país não pretende repetir um modelo baseado apenas na extração e exportação de matérias-primas.

China estava no centro da disputa

Os documentos revelados pelo Estadão mostram que a negociação comercial entre Brasília e Washington estava inserida em uma disputa geopolítica muito mais ampla.

Os Estados Unidos buscavam estabelecer mecanismos capazes de dificultar a aquisição de ativos estratégicos brasileiros por empresas ligadas a países considerados adversários ou concorrentes.

A China era o principal foco dessa preocupação.

Pequim é o maior parceiro comercial do Brasil e tornou-se uma importante fonte de investimentos no país. Ao mesmo tempo, chineses e norte-americanos disputam posições em setores considerados decisivos para a economia do século XXI, incluindo energia, inteligência artificial, semicondutores, veículos elétricos e minerais críticos.

Para o Brasil, essa disputa cria oportunidades de atração de capital e tecnologia, mas também aumenta a pressão para que o país escolha lados em áreas estratégicas.

Exigências iam muito além dos minerais

A proposta norte-americana não se restringia à mineração.

Segundo o jornal, os Estados Unidos também apresentaram demandas relacionadas à abertura de setores industriais brasileiros e à redução ou eliminação de tarifas sobre produtos como etanol, químicos e veículos.

Washington também queria compromissos relacionados ao combate ao trabalho forçado, à pesca ilegal e a desequilíbrios na capacidade mundial de produção de aço.

Questões ligadas ao agronegócio também apareceram nas discussões, incluindo medidas relacionadas ao mercado internacional de soja.

O conjunto de propostas indica que o governo Trump buscava utilizar a negociação desencadeada pelas tarifas para obter mudanças estruturais em diferentes áreas da política econômica brasileira.

Pix e economia digital também entraram na pauta

O setor digital foi outro ponto sensível das tratativas.

Os Estados Unidos defenderam medidas contra impostos incidentes sobre serviços digitais e apresentaram demandas relacionadas à proteção de dados e à neutralidade dos sistemas de pagamento.

Nesse contexto, o Pix também apareceu nas discussões comerciais entre os dois países.

Washington demonstrava preocupação com medidas brasileiras que pudessem criar obstáculos para empresas norte-americanas de tecnologia e serviços financeiros, enquanto o governo brasileiro procurava preservar sua autonomia regulatória.

Disputa por minerais ganha dimensão estratégica

A tentativa norte-americana de obter conhecimento prévio sobre vendas de ativos brasileiros mostra como os minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão de mineração.

Eles passaram a ocupar posição central na disputa tecnológica e industrial entre as grandes potências.

O Brasil possui reservas relevantes de diversos minerais estratégicos e uma das maiores disponibilidades conhecidas de terras raras do planeta. O desafio brasileiro é transformar essa vantagem geológica em capacidade industrial e tecnológica.

O governo Lula vem defendendo que investimentos estrangeiros sejam acompanhados de processamento, agregação de valor, pesquisa e geração de empregos no território nacional.

Brasil tenta evitar escolha entre Washington e Pequim

A rejeição às condições apresentadas pelos Estados Unidos indica que Brasília pretende preservar espaço para negociar simultaneamente com diferentes parceiros.

Isso significa evitar tanto uma dependência excessiva da China quanto um mecanismo que conceda aos Estados Unidos poder de influência sobre decisões brasileiras relacionadas a ativos minerais.

A disputa tende a se intensificar à medida que cresce a demanda mundial por terras raras, lítio, níquel, grafite e outros recursos essenciais às novas tecnologias.

Os documentos revelados pelo Estado de S. Paulo mostram que, por trás da crise comercial desencadeada pelo tarifaço, havia uma negociação de alcance muito maior: a tentativa dos Estados Unidos de assegurar espaço privilegiado nas riquezas minerais brasileiras e conter o avanço chinês em um dos setores mais estratégicos da economia mundial.