247 — Cumprindo a tradição diplomática que cabe ao Brasil desde 1947, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobe à tribuna da Organização das Nações Unidas nesta manhã de terça-feira para abrir o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU. O discurso, com início previsto para as 10h locais (11h no horário de Brasília), promete ser um dos mais contundentes e estruturantes de sua trajetória internacional.
O tom e as diretrizes do pronunciamento foram antecipados pelo próprio mandatário em entrevista de grande repercussão concedida à jornalista Christiane Amanpour, da CNN. No centro da mensagem brasileira aos chefes de Estado de quase 200 países estará o sepultamento definitivo da subserviência global e a exigência de uma nova governança planetária capaz de frear a escalada militarista, a chantagem comercial e a corrosão da ordem internacional.
A trincheira do multilateralismo contra o ‘imperador’
Lula levará ao plenário da ONU a coalizão Partners for Multilateralism (Parceiros pelo Multilateralismo — P4M), articulada pelo Brasil em parceria com nações como Canadá, Quênia e membros da União Europeia. O objetivo explícito é erguer uma barreira institucional contra o unilateralismo destrutivo encampado por potências hegemônicas, sobretudo pela política tarifária e bélica de Donald Trump.
Na antevisão concedida à CNN, o presidente já havia delimitado o diagnóstico que baliza sua intervenção:
“O multilateralismo foi a coisa que mais deu certo para manter o mundo em harmonia. O que estamos vendo hoje é a tentativa de impor a lei do mais forte: ‘eu sou maior, sou mais rico, tenho mais armas e o resto tem que obedecer’. Não aceitamos imperadores. O comércio e a diplomacia têm que ser uma via de duas mãos, equilibrada e soberana.”
Lula apresentará o próprio caso brasileiro como demonstração de que a chantagem unilateral não dobra nações decididas a exercer sua autonomia. Após sofrer retaliações protecionistas de Washington — que derrubaram o comércio bilateral —, o Brasil diversificou parceiros, elevando em 20% os negócios com a China, 23% com a União Europeia, 18% com o Japão e avançando pelo Sudeste Asiático, num salto médio de mais de 10% com 57 economias do Sul Global e da Eurásia.
O grito contra a farsa da paz e o colapso do Conselho de Segurança
O ponto mais dramático e contundente da intervenção brasileira mira a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e o privilégio anacrônico do veto concedido a apenas cinco membros permanentes.
Lula manifestará profunda indignação com o fato de a cúpula das grandes potências assistir paralisada — quando não cúmplice — ao genocídio de dezenas de milhares de mulheres e crianças em Gaza, à prolongada guerra de atrito no Leste Europeu e à escalada de hostilidades no Oriente Médio e no Estreito de Ormuz, que desorganiza a cadeia global de petróleo e joga inflação e fome sobre as populações mais vulneráveis.
“O mundo vive hoje a maior quantidade de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Para que serve um Conselho de Segurança onde cinco membros que mandam e têm direito de veto simplesmente não se reúnem para selar a paz? Enquanto se torram trilhões de dólares em bombas e destruição, falta dinheiro para o combate à fome, para a educação, para a saúde e para a emergência climática. Até quando a humanidade ficará refém de mentiras e da guerra?”
A reforma da arquitetura da ONU e a ampliação dos assentos permanentes com representatividade autêntica da América Latina, da África e da Ásia serão colocadas por Lula como pré-condição existencial para que a organização não tenha o mesmo destino trágico da finada Liga das Nações.
Soberania intransigente: América Latina e democracia
Em solo norte-americano, o líder brasileiro também traçará linhas vermelhas inegociáveis sobre a ingerência em questões regionais e internas. O discurso tocará na necessidade de restaurar a autodeterminação dos povos na América Latina, rechaçando a transformação de vizinhos, como a Venezuela, em protetorados sob tutela militar ou econômica de potências estrangeiras. A única saída legítima, defenderá Lula, parte do voto soberano e do diálogo sem bloqueios.
Da mesma forma, o mandatário levará ao mundo o testemunho da firmeza democrática brasileira. A poucas semanas do pleito no país, o presidente deixará claro que a escolha histórica da sociedade brasileira se dá entre a civilização e a barbárie — entre a preservação ambiental de biomas vitais e a sanha predatória; entre a inclusão social e o abismo da desigualdade.
Com o olhar voltado aos líderes globais, mas falando aos povos do Sul e aos trabalhadores do mundo inteiro, Lula abre os trabalhos em Nova York reafirmando que governar o século XXI exige a coragem de cuidar da vida e da sustentabilidade, sem qualquer rendição à tirania das armas ou do capital desregulamentado.






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