247 – O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, afirmou nesta segunda-feira (21) que pretende manter uma relação “pragmática economicamente” com a China caso seja eleito. Em comício realizado em Natal (RN), o senador disse que sua política externa buscaria atrair investimentos e manter relações com diferentes potências sem, segundo ele, obrigar o Brasil a escolher entre Estados Unidos e China. As declarações foram publicadas pela CNN Brasil.

“Minha relação vai ser sempre pragmática economicamente. Vamos fazer o que for melhor para a nação brasileira”, afirmou Flávio. Na mesma declaração, o candidato criticou a política externa do governo Lula, dizendo que a atual gestão “declara guerra aos Estados Unidos e lambe bota da China”.

Flávio afirmou que pretende dialogar com países dispostos a investir e transferir tecnologia para o Brasil. Citou nominalmente Estados Unidos, China e Israel, além do Oriente Médio, e disse que eventuais negociações seriam orientadas pelo que considerar o interesse brasileiro.

China acompanha campanha de Flávio

As declarações ocorrem no momento em que Pequim acompanha com atenção a campanha presidencial brasileira. Segundo apuração da CNN, fontes chinesas afirmam que o governo de Xi Jinping monitora as “falas e práticas” de Flávio diante da possibilidade de mudança na orientação da política externa brasileira.

De acordo com a reportagem, existe preocupação em Pequim com a possibilidade de um eventual governo de Flávio adotar uma posição fortemente alinhada aos Estados Unidos e hostil à China. Ao mesmo tempo, interlocutores chineses ouvidos pela CNN avaliam o candidato como mais pragmático e moderado em relação à China do que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

As relações sino-brasileiras enfrentaram episódios de tensão principalmente nos primeiros anos do governo Jair Bolsonaro. Entre os episódios citados pela CNN estão declarações do então deputado Eduardo Bolsonaro responsabilizando a China pela pandemia e manifestações do então chanceler Ernesto Araújo. As tensões diminuíram na segunda metade daquele governo, especialmente após a substituição de Araújo por Carlos França no Itamaraty.

Brics está entre as preocupações de Pequim

Um dos pontos acompanhados pela China é o futuro da participação brasileira no Brics. Para Pequim, segundo fontes ouvidas pela CNN, a permanência do Brasil no agrupamento é considerada importante. A China exercerá a presidência rotativa do bloco em 2027.

O tema ganha relevância porque o programa de governo apresentado por Flávio Bolsonaro não menciona o Brics. O documento também não faz referência ao Mercosul e estabelece como uma de suas prioridades de política externa a retomada do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Além do Brics, autoridades chinesas acompanham as posições do candidato sobre minerais críticos e inteligência artificial, duas áreas que ganharam peso na disputa estratégica entre China e Estados Unidos.

Comércio é visto como relação de longo prazo

Apesar das dúvidas sobre a orientação política de um eventual governo Flávio Bolsonaro, fontes chinesas ouvidas pela CNN avaliam que a relação econômica entre os dois países possui fundamentos de longo prazo e dificilmente seria desfeita por divergências políticas pontuais.

A China é um mercado central para produtos brasileiros como soja, petróleo, minério de ferro e carnes. Segundo a CNN, somente em 2025 o país asiático comprou 87 milhões de toneladas de soja brasileira, consolidando o Brasil como seu maior fornecedor do grão.

O quadro para os investimentos é considerado mais sensível. Empresas chinesas ampliaram sua presença no Brasil em setores como veículos elétricos, ferrovias, centros de dados, telecomunicações e plataformas digitais. Na avaliação das fontes chinesas consultadas pela CNN, novos investimentos de grande porte dependem também de estabilidade nas relações políticas e diplomáticas.

Ao defender uma relação econômica pragmática com Pequim e afirmar que o Brasil não deve escolher entre China e Estados Unidos, Flávio procura apresentar sua própria formulação para um dos temas centrais da política externa brasileira. A maneira como essa orientação seria aplicada, especialmente em temas como Brics, tecnologia e minerais críticos, permanece como uma questão relevante da campanha presidencial.