Um grupo de políticos, intelectuais e representantes culturais em Paris solicitou ao Conselho da cidade que declare o presidente argentino Javier Milei “persona non grata” e recuse qualquer homenagem oficial a ele durante a “Argentina Week”, evento programado para o final de setembro e início de outubro. A iniciativa, revelada nesta quarta-feira (2), critica as políticas da administração argentina e visa impedir a concessão de distinções institucionais ao líder sul-americano.

A petição, encaminhada às autoridades municipais parisienses, conta com a assinatura de diversas personalidades da política, cultura e defesa dos direitos humanos na França. Entre os signatários estão a vereadora Geneviève Garrigos, o deputado Rodrigo Arenas, a advogada Sophie Thonon, o ator Nahuel Pérez Biscayart e os cineastas Santiago Amigorena e Alberto Marquardt. Os argumentos apresentados no documento referem-se às medidas de austeridade implementadas na Argentina e às posições do governo em questões sociais e históricas.

Críticas e controvérsias

As críticas abordam temas como o enfraquecimento dos serviços públicos, supostos retrocessos nos direitos das mulheres, a atuação das forças de segurança em manifestações e a postura do governo em relação aos crimes da última ditadura militar argentina. A situação da Casa Argentina, uma residência estudantil em Paris com forte ligação à comunidade acadêmica e cultural, também foi destacada. A nomeação do advogado Santiago Muzio para dirigir a instituição gerou controvérsia, com relatos de expulsões de moradores, a retirada de uma placa em homenagem a desaparecidos da ditadura e a promoção de atividades vistas como de extrema direita.

A Prefeitura de Paris já teria manifestado preocupação ao Ministério das Relações Exteriores da França sobre as decisões tomadas na Casa Argentina após a mudança de direção. A residência, que abrigou figuras como o escritor Julio Cortázar, é um ponto histórico para a presença argentina na França. Os autores da petição buscam que Paris demonstre apoio aos setores democráticos da sociedade argentina e use a eventual visita de Milei para expressar oposição às políticas contestadas.

A mobilização em Paris ocorre em um contexto de desaprovação crescente do governo argentino. Pesquisas de opinião, como a da consultoria Equipo Mide, indicam que 58% dos entrevistados desaprovam a administração de Milei. Destes, 43% a classificam como “muy mala” e 15% como “mala”. Enquanto isso, 24% consideram a gestão “buena” e 14% “muy buena”. O levantamento aponta ainda que parte dos eleitores que apoiaram La Libertad Avanza no primeiro turno de 2023 desejam mudanças na política econômica, com foco na recuperação do consumo.

É importante ressaltar que a petição não impede a entrada de Milei na França, mas busca que as autoridades municipais de Paris se abstenham de realizar homenagens, recepções oficiais ou qualquer gesto institucional durante a passagem do presidente argentino pela capital francesa.