247 – Empresários e executivos de companhias com peso na economia nacional e no mercado financeiro passaram a se mobilizar para discutir a crise no Judiciário, agravada nos últimos dias por novos episódios envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A articulação inclui a elaboração de um manifesto e uma reunião reservada, marcada para quarta-feira (9), com juristas convidados a debater propostas de aperfeiçoamento institucional da Corte. As informações foram publicadas pelo jornal Valor Econômico.

Lideranças da indústria, da Faria Lima e da sociedade civil foram chamadas para uma conversa no fim do dia, por videoconferência, com o objetivo de reunir diagnósticos e sugestões sobre o funcionamento do Judiciário.

A crise ganhou novo impulso após o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, retirar o sigilo de documentos que revelam comunicações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Moraes reagiu pedindo a investigação de Mendonça por abuso de autoridade, o que ampliou a tensão interna no Supremo e levou setores empresariais a se organizarem em torno do tema.

No convite enviado a dezenas de representantes da indústria e do mercado financeiro, o grupo afirma que os acontecimentos recentes tornaram urgente a discussão sobre o Judiciário. “À luz dos acontecimentos recentes, entendemos que a discussão sobre o funcionamento, equilíbrio e o aperfeiçoamento institucional do Judiciário ganhou grande relevância e urgência. Nosso propósito é reunir, em uma conversa reservada e construtiva, importantes lideranças (…) para uma reflexão séria sobre o fortalecimento das instituições brasileiras”, diz a mensagem, segundo o Valor.

Entre os juristas convidados para participar do debate estão Miguel Reale Júnior, José Eduardo Cardozo, Maria Tereza Sadek, Patricia Vanzolini e Oscar Vilhena Vieira. A ideia, de acordo com a reportagem, é reunir diferentes pontos de vista sobre a crise da Corte e discutir caminhos institucionais para enfrentar o desgaste.

Um dos organizadores do fórum afirmou ao Valor que o objetivo é transformar a preocupação do setor privado em uma posição organizada. “Está difícil conviver com esta situação do Judiciário. Vamos reunir ideias e buscar uma forma de elaborar um manifesto”, disse.

A reunião deve contar com empresários e representantes de diferentes setores. Entre os nomes citados estão Pedro Passos, acionista da Natura; Josué Gomes, da Coteminas; Jackson Schneider, conselheiro de grandes empresas como Abra e CBMM; Pedro Wongtschowski; além de outros executivos e empresários. A estimativa é que entre 50 e 60 pessoas participem do encontro.

Nos últimos dias, a crise no STF também passou a ser comentada publicamente por empresários. Sérgio Zimerman, acionista de referência da Petz, afirmou em um seminário voltado a empreendedores que defende a ida da sociedade civil às ruas para demonstrar indignação com a situação da Corte.

Ao Valor, Zimerman disse não participar individualmente de manifestos, mas declarou apoio a uma mobilização mais ampla. “A crise [no STF] está completamente politizada. Sou contra a politização e essa questão não pode ser tratada como uma crise de direita ou de esquerda”, afirmou.

Para o empresário, o debate sobre o Supremo não deve ser tratado como disputa entre campos políticos. “A impressão é que o país está anestesiado e gente não chega a lugar nenhum. Parece que perdemos a capacidade de discutir os fatos. A Justiça não tem lado”, disse Zimerman.

Na Faria Lima, a crise também entrou na pauta de executivos do setor financeiro, embora muitos evitem exposição pública. Um executivo graduado ouvido sob reserva afirmou ao Valor que há preocupação disseminada no empresariado. “Todos os empresários estão nessa toada, mas poucos vão ter coragem de se expor”, disse.

A mesma fonte afirmou que há temor de retaliação entre empresários que cogitam se manifestar. “O país perdeu a institucionalidade, é bem duro, bem difícil. As pessoas não podem falar mais, é a cultura do medo”, declarou. Questionado sobre por que não se posiciona publicamente, o interlocutor disse haver “100% de receio de retaliação” e afirmou que empresários de diferentes setores estão “estarrecidos”.

Outro representante do mercado financeiro, ao comentar o embate entre Moraes e Mendonça, avaliou que o país enfrenta uma crise institucional grave. Segundo ele, as revelações ligadas ao caso Master são “estarrecedoras” e indicam que os mecanismos de freios e contrapesos não estariam funcionando como deveriam.

A mobilização empresarial ocorre em um momento de desgaste crescente entre integrantes do Supremo, após a divulgação de documentos do caso Master e a reação de Moraes contra Mendonça. O movimento de setores da indústria e do mercado financeiro busca agora organizar uma resposta institucional, por meio de um manifesto, para pressionar por mudanças no funcionamento do Judiciário.