247 – O jornal O Estado de S. Paulo defendeu, em editorial, a saída de Paulo Gonet do comando da Procuradoria-Geral da República (PGR), argumentando que as revelações relacionadas ao escândalo do Banco Master provocaram uma crise de confiança que compromete sua permanência no cargo. Na avaliação do jornal, Gonet deveria renunciar para preservar a credibilidade da instituição e, caso decida permanecer, caberia ao Senado examinar a possibilidade de seu afastamento por crime de responsabilidade.

O editorial concentra parte das críticas na relação entre Gonet e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e personagem central das investigações. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal, segundo o jornal, revelariam uma relação de proximidade entre os dois, com manifestações afetuosas e registros de encontros. Para o Estadão, essa relação se tornou particularmente problemática diante das atribuições institucionais exercidas pelo procurador-geral em procedimentos relacionados ao caso.

O jornal ressalta, porém, que não há prova de que Gonet tenha atendido a pedidos de Vorcaro para interferir nas investigações. Segundo o editorial, mensagens indicariam tentativas do banqueiro de envolver o procurador-geral em movimentos destinados a mobilizar o ministro Alexandre de Moraes. A ausência de evidência de que Gonet tenha efetivamente aderido a essas iniciativas, contudo, não seria suficiente, na visão do jornal, para eliminar os questionamentos sobre sua posição institucional.

Estadão questiona atuação de Gonet no caso

Outro ponto destacado pelo editorial é a atuação do procurador-geral diante de investigações que alcançam autoridades. O jornal critica um pedido de arquivamento apresentado ao Supremo Tribunal Federal e sustenta que a manifestação teria buscado encerrar uma investigação sem exame aprofundado do mérito.

A crítica do Estadão vai além do episódio específico. O jornal acusa Gonet de aplicar princípios jurídicos de maneira seletiva, demonstrando rigor em determinadas circunstâncias e uma postura mais cautelosa quando os fatos atingem integrantes das cúpulas do poder.

O editorial também questiona o que considera uma “ortodoxia jurídica” variável do procurador-geral. Segundo o jornal, Gonet apresentou objeções jurídicas em determinados episódios, mas não adotou postura semelhante diante de controvérsias envolvendo o inquérito das fake news, conduzido por Alexandre de Moraes.

Para o Estadão, essa diferença de comportamento alimenta a percepção de que a PGR não estaria empregando os mesmos critérios em todos os casos.

Relação com Vorcaro alimenta questionamentos

A proximidade revelada entre Gonet e Vorcaro ocupa posição central na argumentação do jornal. O editorial considera que a combinação entre essa relação pessoal e a participação institucional do procurador-geral em procedimentos relacionados às investigações cria, no mínimo, uma questão de confiança pública e possível conflito de interesses que deveria ter sido enfrentada de maneira mais rigorosa.

O jornal também questiona a participação de Gonet na tramitação de material no qual seu próprio nome aparece. Na avaliação do editorial, circunstâncias dessa natureza exigiriam cautela especial e mecanismos capazes de afastar qualquer dúvida sobre suspeição ou favorecimento.

O argumento central é que o cargo de procurador-geral da República exige não apenas atuação dentro da legalidade, mas independência suficientemente clara para que não existam dúvidas razoáveis sobre a imparcialidade de quem dirige o Ministério Público Federal.

Jornal defende renúncia ou ação do Senado

Diante desse conjunto de fatos, o Estado de S. Paulo considera que Gonet deveria deixar voluntariamente a Procuradoria-Geral da República. Para o jornal, sua renúncia seria a maneira de impedir que a crise pessoal de confiança se transforme em um problema ainda maior para a própria instituição.

Caso Gonet não renuncie, o editorial sustenta que o Senado deveria avaliar sua conduta e verificar se existem elementos que possam configurar crime de responsabilidade e justificar seu afastamento nos termos previstos pela legislação.

A cobrança feita pelo Estadão amplia a pressão sobre o comando da PGR em meio à crise provocada pelo caso Master. Mais do que questionar decisões específicas de Paulo Gonet, o editorial coloca em discussão sua capacidade de continuar exercendo uma função que depende, essencialmente, da percepção de independência e imparcialidade.

Na avaliação do jornal, essa confiança foi abalada a ponto de tornar sua permanência no cargo insustentável.