247 – A Logo Caruaruense, empresa de transporte coletivo pertencente à família da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), acumula R$ 3,2 milhões em débitos previdenciários, segundo levantamento apresentado na apuração que embasa esta reportagem. Desse montante, mais de R$ 1 milhão corresponde a dívidas relacionadas ao INSS dos trabalhadores.
A companhia, registrada oficialmente como Logo Transportes Ltda., tem como integrantes de seu quadro societário familiares da governadora, entre eles o pai, João Lyra Neto, a mãe, Mércia Lyra, e as irmãs Nara e Paula Lyra, conforme dados públicos do Portal da Transparência do governo federal. Raquel deixou o quadro societário em 2018.
Os débitos previdenciários se somam a um histórico de problemas trabalhistas, administrativos e operacionais envolvendo a empresa e sociedades das quais participou. O caso inclui uma condenação por dumping social, após o Ministério Público do Trabalho (MPT) identificar trabalhadores mantidos sem registro formal, além de uma investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) sobre as condições em que a transportadora operava.
Condenação por dumping social
Um dos episódios mais graves ocorreu no âmbito trabalhista. O Ministério Público do Trabalho em Pernambuco obteve sentença contra Jotude, Progresso e o Consórcio Progresso/Logo por práticas consideradas dumping social e por danos morais coletivos.
A decisão foi proferida pela juíza Sohad Maria Dutra Cahu, da Vara do Trabalho de Garanhuns, em 18 de dezembro de 2015 e divulgada pelo MPT em janeiro de 2016. As empresas foram condenadas ao pagamento de R$ 539 mil.
A sentença proibiu as companhias de utilizar contratos de locação, comodato ou outros instrumentos com o objetivo de esconder relações efetivas de emprego. Também determinou que profissionais que trabalhassem com pessoalidade, subordinação, remuneração e habitualidade fossem formalmente registrados.
Segundo o MPT, parte dos motoristas chegou a continuar trabalhando normalmente depois de ter a carteira de trabalho baixada. Eles eram realocados para outras empresas e tratados como “freelances” ou autônomos, apesar das características típicas de uma relação empregatícia.
Previdência e FGTS deixaram de receber recursos
As investigações trabalhistas identificaram ainda consequências diretas para os trabalhadores e para os cofres públicos. De acordo com o MPT, Progresso e Consórcio Progresso/Logo deixaram de recolher contribuições previdenciárias e depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Também foram identificados casos em que não houve pagamento de férias, 13º salário proporcional, adicional noturno e outros benefícios previstos em normas coletivas.
“As empresas deixaram de recolher à Previdência e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), não pagaram férias ou 13º salário proporcionais como verbas rescisórias, adicional noturno ou benefícios previstos em normas coletivas, gerando prejuízo aos cofres públicos e aos trabalhadores”, afirmou à época o procurador do Trabalho José Adílson Pereira da Costa.
A Justiça reconheceu ainda o vínculo de empregados tratados como “freelances” ou autônomos durante a vigência de um contrato de comodato entre a Progresso e o Consórcio. Com isso, os trabalhadores passaram a ter direito à apuração de salários, verbas rescisórias e indenizações eventualmente não quitadas.
Ônibus passaram anos sem vistorias obrigatórias
A situação da Logo Caruaruense voltou ao centro das atenções em 2026, após a divulgação de documentos da Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI).
Relatório do órgão apontou que os 50 ônibus cadastrados pela empresa estavam com as vistorias obrigatórias vencidas. Segundo informações publicadas em janeiro, a última inspeção havia ocorrido em 2022, antes do início do atual governo estadual.
Também foram relatados problemas como pneus em condições inadequadas e cintos de segurança sem funcionamento. As irregularidades levaram a EPTI a instaurar procedimento administrativo para avaliar a regularidade cadastral da transportadora.
A legislação estadual exige vistoria periódica dos veículos e manutenção do Certificado de Registro Cadastral (CRC) como condição para a operação regular do transporte intermunicipal.
Reportagens publicadas à época apontaram ainda que havia veículos com licenças vencidas desde 2021 e que a empresa estava sem o CRC regularizado havia anos.
Ministério da Justiça abriu investigação
As denúncias chegaram ao governo federal. Em 9 de março de 2026, a Secretaria Nacional do Consumidor, ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, instaurou uma Averiguação Preliminar para investigar possíveis irregularidades na prestação do serviço pela Logo Caruaruense.
Segundo a Senacon, a apuração foi motivada por informações sobre ausência de vistorias técnicas obrigatórias por mais de três anos, circulação de veículos acima dos limites de idade estabelecidos e supostas condições precárias da frota.
O órgão notificou a empresa para apresentar documentos sobre as inspeções, as condições dos ônibus, eventuais reclamações de consumidores e as providências adotadas para reparar possíveis problemas.
A Senacon destacou que o procedimento tem caráter investigativo e que eventuais medidas administrativas dependeriam da análise da documentação e dos demais elementos reunidos no processo.
Empresa encerrou operações
Em janeiro de 2026, em meio à repercussão das irregularidades, a Logo Caruaruense anunciou o encerramento de suas atividades e a devolução das linhas intermunicipais que explorava.
À época, a empresa atribuiu a decisão a dificuldades econômicas do setor e aos efeitos prolongados da pandemia. As linhas acabaram sendo assumidas por outra operadora.
O encerramento não interrompeu a apuração da Senacon. Em julho, o órgão informou que continuava analisando as circunstâncias da operação e do próprio fechamento da empresa.
Raquel Lyra deixou sociedade em 2018
Raquel Lyra integrou formalmente a Logo Transportes antes de chegar ao governo de Pernambuco. Em sua declaração de bens referente à eleição de 2010, constavam 2 mil cotas do capital da empresa, avaliadas então em R$ 2 mil. A participação voltou a aparecer na declaração apresentada à Justiça Eleitoral em 2016.
Segundo registros divulgados posteriormente, Raquel transferiu sua participação ao pai, João Lyra Neto, em 2018. Desde então, não integra formalmente o quadro societário.
O governo estadual afirmou, quando as irregularidades da empresa vieram a público, que “jamais houve favorecimento político-administrativo em relação à empresa Logo Caruaruense”.
Dados públicos do governo federal consultados em 2026 identificam como sócios da Logo Transportes João Lyra Neto, Mércia Lyra, Nara Lyra Mahon e Paula Teixeira Lyra.






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